Do silêncio do Estado à voz que resiste
Em pleno século XXI, no interior de Portugal, uma grávida tem de percorrer mais de 100 quilómetros para fazer uma ecografia em Amarante. Não estamos a falar de uma exceção ou de um caso pontual: é o retrato fiel do quotidiano de muitas mulheres que, além dos desafios próprios da gravidez, enfrentam
Em pleno século XXI, no interior de Portugal, uma grávida tem de percorrer mais de 100 quilómetros para fazer uma ecografia em Amarante. Não estamos a falar de uma exceção ou de um caso pontual: é o retrato fiel do quotidiano de muitas mulheres que, além dos desafios próprios da gravidez, enfrentam a distância, o custo e o cansaço de viverem em zonas de onde o Estado, na prática, já se ausentou.
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A recente decisão do Município de Vinhais de apoiar financeiramente o transporte destas utentes para exames e consultas fora do concelho é mais um exemplo do que se tornou rotina: os municípios a substituírem-se ao Governo central para garantir aquilo que devia ser básico, o acesso à saúde. Além disso, a autarquia garante alojamento e refeições para médicos que vêm de fora, para que haja sempre consulta aberta no centro de saúde. Estas não são medidas de inovação: são atos de emergência.
E o que diz isto sobre o país que somos?
Diz que estamos num ciclo vicioso: falamos da importância de aumentar a natalidade, mas não damos condições para nascer. Apelamos à fixação de jovens no interior, mas continuamos a deixá-los sem cuidados de saúde essenciais. Declaramos em discursos públicos a necessidade de combater as assimetrias regionais, enquanto entregamos a municípios com orçamentos limitados o pesado fardo de manter os serviços mínimos às populações.
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Devia chocar-nos. Uma grávida não devia ter de sair do distrito para fazer um exame. Um presidente de câmara não devia ter de encontrar alojamento para médicos. E um país envelhecido como o nosso não pode dar-se ao luxo de tratar a natalidade como um assunto burocrático ou meramente estatístico.
Sem saúde próxima, acessível e eficaz, não haverá jovens famílias no Interior. Sem médicos fixos, não haverá estabilidade. Sem investimento público real, do Estado central, estaremos apenas a adiar o deserto demográfico, enquanto aplaudimos os autarcas que fazem milagres com os recursos que têm.
Aplaudir, sim. Mas exigir, também. Porque é o Estado que deve garantir que todas as mulheres, independentemente da sua morada, têm direito a uma gravidez com dignidade. E que todos os cidadãos, em Vinhais ou em Lisboa, tenham acesso aos mesmos cuidados de saúde.
A questão não é se os municípios devem ajudar. A questão é: até quando é que o Estado vai continuar a demitir-se das suas responsabilidades?
Falando agora de boas notícias, é reconfortante ver histórias como a da pequena Maria Leonor, de Bragança, que nos emocionou com a sua voz no “The Voice Kids”. Aos 10 anos, mostra-nos que a música pode ser mais do que arte: pode ser escudo, casa, cura.
Na sua entrevista ao Jornal Nordeste, conta como encontrou nos fones e nas canções a força para continuar, quando sofreu bullying. Hoje, leva para o palco o sonho do avô e uma mensagem de coragem. Que maior exemplo queremos para os nossos jovens? É esta a outra face do interior: a que resiste, a que canta, a que sonha. Mas não nos iludamos: para que mais Leonores possam crescer, é preciso mais do que talento. É preciso investimento. É preciso investimento. É preciso justiça.
Cátia Barreira, Diretora de Informação
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