A RUGA NA TESTA

Parece cena de filme: sábado de manhã. Desço as escadas do prédio, chego à rua e, quase como se estivesse à minha espera, uma amiga de longa data, entre o rotineiro cumprimento e a cumplicidade da amizade, desabafa: “-Descobri que tenho rugas na testa…”. O inusitado da situação e o lento despertar d

08 mar. 2016, 11:28

Parece cena de filme: sábado de manhã. Desço as escadas do prédio, chego à rua e, quase como se estivesse à minha espera, uma amiga de longa data, entre o rotineiro cumprimento e a cumplicidade da amizade, desabafa: “-Descobri que tenho rugas na testa…”. O inusitado da situação e o lento despertar da manhã, levam-me a esboçar um sorriso que amareleceu quando descubro uma lágrima grossa e fria a precipitar-se-lhe pela face. Também me apercebi que aquela amiga tem a capacidade de chorar apenas de um olho… ou nunca terei reparado nisso. Na tentativa de aliviar a tensão, disparei: “-Deixa lá, podes dar-te por feliz porque só agora começam a aparecer…”. Sem me deixar acabar a frase, explode: “- Não é isso! É que me apercebi que tenho rugas quando vi uma fotografia que tirei há quatro anos!”

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Sem propósito nenhum, ou pelo menos, relação alguma, também eu fico com rugas, quando um antigo alto comissário da ONU, convidado a participar nas jornadas do PSD que decorreram em Santarém, afirmou que o mundo perdeu a capacidade de prevenir e resolver conflitos. De facto, António Guterres constata aquilo de que qualquer cidadão se apercebe: a falência dos modelos, sejam eles económicos ou sociais, e o aparecimento repentino de novas conjunturas para as quais ninguém está preparado, pese embora se tenham verificado melhorias significativas nos métodos de análise e, cada vez mais, existam organizações dedicadas a estudos de mercado e afins. Se é esta a realidade, o que falha então, partindo do pressuposto de que a afirmação de Guterres é válida? Uma das causas poderá ser o próprio método de análise. A partir do século dezoito, só tem validade o que pode ser mensurado e legitimado pela força dos números. Esta ditadura é tão ou mais perniciosa quando, até para aferir pontos de vista e opiniões se recorre aos métodos estatísticos. Não deixa de ser curioso que, ainda recentemente, um grupo de trabalho que coordenado, tenha aplicado um questionário sobre a percepção relativamente a uma determinada realidade e os resultados foram excelentes. Quando se cruzaram estes dados com o que foi captado em entrevista, e onde os entrevistados eram os mesmos da amostra do questionário, os dados foram contraditórios. As metodologias estavam validadas, o que se altera é a percepção face aos instrumentos de recolha.

O mundo atual, e sobretudo os líderes mundiais, vivem um momento em que estão tão concentrados na procura de respostas para os problemas atuais que se esquecem de que uma das suas missões é preparar o futuro. Seria bom que alguém recordasse, a todos quantos têm funções políticas, as máximas e os pensamentos do nosso povo até aos anos setenta do século passado. A gente das nossas terras, quando conseguia ter algum dinheiro punha de parte uma quantia, para o futuro. E este futuro tanto podia ser pagar a um médico, comprar mais uma terra ou os estudos dos filhos. Havia esta preocupação e, por isso, não raras vezes, chegava-se ao fim da vida e só aí e que os herdeiros descobriam o monte das notas ou o pote de barro com os fios de ouro. Não importava que se concretizasse, havia o ideal e vivia-se por ele sacrificando o presente, em alguns casos. Ideais, pensamento e valores. Tudo o que organiza a vida em sociedade decorre da reflexão e do pensamento. Ora num mundo frenético onde não há lugar para nenhum destes valores e começa a escassear espaço para o livre pensamento e para o que é específico do homem, não admira que se perca a capacidade de projetar e prever seja o que for.

Anchor Disfarço a ruga e esboço um sorriso ao ser informado que, durante este mês, a editora Objetiva irá lançar o livro de Paul Mason “Pós-capitalismo – um guia para o nosso futuro” onde para além de se tentar explicar a contradição entre o capitalismo e a economia global, também se advoga que as novas tecnologias trouxeram uma nova forma de fazer política e dinheiro, não havendo por parte do sistema capitalista a necessária capacidade de adaptação, pelo que, numa perspetiva evolucionista, dir-se-á que estará para breve o fim desta espécie. Novos céus e nova terra, quem sabe?

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Por Raúl Gomes

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