Serões nas aldeias... só recordações!

Ter, 20/03/2018 - 10:19


Olá familiazinha!
Ontem festejou-se o dia de S. José, o dia do pai. Escusado será dizer que tive muito miminho do meu João André e, para o meu pai, eu quero de coração
dar-lhe um abraço em sinal de gratidão. Aos filhos que já viram partir o seu pai para a eternidade, que eles descansem em paz e que os recordem com saudade.
Hoje entra a nossa prima... a vera, que reinará até dia 21 de Junho.
Na última semana festejaram connosco o seu aniversário a tia Lurdes (59), de Grijó (Bragança), emigrante na França; a Sabrine (23), de Grijó (Bragança); a tia Rosa (80), de Possacos (Valpaços); a tia Matilde (43), de Chavães (Tabuaço); o tio Cristophe (55), o suíço mais português da nossa família; a tia Ana Maria (54), de Caçarelhos (Vimioso) e por último o tio Brilhantino (93), de Saldanha (Mogadouro), que segundo nos disse a sua esposa, ainda cultiva os seus quintais e consegue fazer bem a vénia na igreja.
Hoje vamos recordar um pouco os serões de antigamente, à luz da candeia, inspirados no livro de Mónica Ferreira, filha do nosso tio Domingos Ferreira, de Genísio (Miranda do Douro), que traduziu a Bíblia para Mirandês. Este livro «Uma Noite de Serão à Luz da Candeia», contém histórias que se contavam nos longos serões à lareira, à luz da candeia, no tempo em que ainda não havia luz eléctrica.
Fica em baixo a apresentação deste livro pela mão da sua autora e também vos deixo um dos muitos contos que constam deste livro.

Conto: “A Raposa e a Capoeira”
Amiga dos pais, e esposa do senhor Manuel, um dos também presentes naquela noite, vinha-lhe à memória uma história que a ambos tinha acontecido e preparou-se para a contar:
Como é sabido, a típica capoeira transmontana era composta pelo curral e uma pequena abertura numa das paredes denominada buraca, por onde as galinhas saíam para a rua. Esta, porém, era tapada uma vez que as galinhas estivessem dentro, não fosse a raposa matreira entrar e fazer das suas.
Uma bela tarde, ao lusco- fusco, não encontrando ninguém em casa, a raposa, entrou pela buraca e encheu a barriga daquilo que encontrou. De barriga cheia experimentou sair pelo mesmo sítio por onde entrou, mas não cabia. Dizendo mal da sua vida, fez-se de morta no meio do galinheiro. Quando o dono chegou e viu tamanho espalhafato, chamou pela mulher e pediu que lhe trouxesse uma faca bem afiada. Esta, admirando-se do sucedido, perguntou ao marido:
— Ah Manel! Para que queres essa faca?
— Vem e vê.
Ela, pegando na faca e vendo tamanha confusão e o animal estendido no chão, respondeu-lhe:
— Ai de nós, o que nos fez tamanho traste. Leva isto lá para fora pois cheira mal que tresanda.
Ele pegou na raposa, colocou-a junto à porta de entrada que se encontrava aberta. Enquanto foi buscar a faca, a ladina num salto colocou-se de pé e antes que a enxergassem, pôs-se a milhas. Quando o homem chegou de mangas arregaçadas e com a faca em punho para ao menos lhe aproveitar a pele, só lhe encontrou o sítio.
Esta era uma das muitas façanhas que tal como o lobo matreiro, também a raposa ladina sabia pregar.

Introdução do livro de Mónica Ferreira
O costume de serenar faz parte de uma das tradições que se foi perdendo nas aldeias do nordeste transmontano, devido à chegada dos meios de comunicação às nossas casas, mais concretamente a televisão.
À luz da candeia, mesmo juntinho à lareira, aos serões, partilhavam-se memórias, com o intuito de transmitir a cultura ao longo de gerações.
Através da oralidade narravam-se, histórias, fábulas e lendas que não só nos entretinham, como tinham também uma função educativa, pois ao ouvi-las reforçavam-se laços de convivência.
Segundo a literatura e na opinião de Perafita(1) as histórias, eram ouvidas em relatos breves, contendo uma linguagem simples; baseadas em acontecimentos ocorridos no passado, relacionados estes com a cultura, religião, criação de animais, trabalho campestre, proeminente e de extrema importância noutros tempos. Histórias relacionadas também com acontecimentos engraçados ou menos bons, eram igualmente referidos para que, sabendo deles, nos precavêssemos e não viessem bater às nossas portas.
As fábulas, eram transmitidas em forma de narrativas curtas onde as ações ocorriam num tempo e espaços indefinidos, recorrendo à personificação de animais para nos transmitir uma ou outra ideia moralizadora.
As lendas, eram compostas por pequenas narrativas sobre acontecimentos, históricos, religiosos e as personagens estavam bem identificadas apresentando um tempo e espaço bem definido.
Vou contar-vos como era uma daquelas noites ao serão, dos quais os nossos pais, avós, vizinhos e amigos tanto falavam, do tempo da infância da minha avó, quando vivia em casa dos seus pais. Como eram passadas as noites, numa pequena aldeia transmontana, entre as casas amigas, desde o toque das trindades, ao anoitecer, até ao toque das almas, por volta das 21h00, quando não se alargava até mais tarde, o que em geral acabava sempre por acontecer.
1 - Perafita, Alexandre, (2010) Património Imaterial do Douro: Narrações orais, Conto. Lendas. Mitos. Pág. 16-
-21 2aed. Editora âncora.