Histórias de cabras e do bom queijo

Ter, 16/07/2019 - 14:53


Olá como estão os leitores da página do tio João?

 

Como diz o povo, “nós cá vamos e cá imos”.

No início da semana passada, dia 8 de Julho, segunda-feira, ocorreram em toda a nossa região aguaceiros e trovoadas que em muitas localidades foram de muita e boa rega, pois esteve algumas horas a chover bem caída e sem fazer estragos.

No nosso programa da Rádio Brigantia “Bom dia tio João”, embora as nossas conversas a nossa gente mostrasse o contentamento pela chuva caída, tivemos o relato da tia Isalina de Vila Chã da Braciosa (Miranda do Douro) que nos contou que ninguém daquela aldeia tinha visto coisa igual, trovoada com chuva de pedra “eram as quatro e meia da tarde, o céu estava completamente preto e começou a chover pedra do tamanho de ovos de galinha durante alguns minutos e eu a espreitar pela janela nunca tive tanto medo, quando parou apercebemo-nos que tinha dado cabo de tudo nas hortas e árvores de fruto. Só as batatas se aproveitam porque estavam debaixo de terra. Danificou vários telhados partindo algumas telhas, e eu tinha uma mesa de plástico no meu jardim, a qual ficou com buracos tão grandes que qualquer copo por ali caía.” No sábado, dia 13 foi o concelho de Mogadouro  o mais fustigado com  a trovoada. As localidades de Tó, Brunhoso,  Zava  e a Vila de Mogadouro foram as mais prejudicadas nas suas explorações agrícolas com a chuva de pedra do tamanho de bolas de golf. Nesse dia  também  Souto da Velha em Torre de Moncorvo teve uma grande tromba de água provocando muitas inundações de lodo e muitos prejuízos em habitações. Nas hortas ficou tudo destruído. 

O tio Ramiro, de Mourão (Vila Flor), dizia-nos no ano passado: “venho a este porque pode ser o último”. Ironias do destino, estranhei a sua ausência no piquenicão deste ano e fiquei, depois a saber que tinha morrido nesse dia, os sentimentos à família enlutada e paz a sua alma!

Nestes últimos dias festejaram connosco o seu aniversário a tia Ilda (74), de Vale Figueira ( Tabuaço); Armindo Miráco (76)  de Vinhais;  Cristiana  Morais (34), de Milhão; António Santos (55), de Torre de Dona Chama ; tio Neca Gaiteiro (84), de Romariz  (Vinhais) ; Luís Rodrigues (43), de Viduedo (Bragança) e Silvana  Machado (45), de Pinela (Bragança) . Para todos saúde e paz que o resto a gente faz! 

E agora vamos ao tema desta semana, sobre a cabra preta de Montesinho e a confecção do queijo.

 

No nosso programa, no verão um dos grupos que mais participa é o dos pastores. Telefonam em directo do lugar onde se encontram a pastorear o seu rebanho, e alguns mesmo da corriça, no momento em que estão a fazer a ordenha das ovelhas e das cabras. A tia Rosa, de  Carrazeda de Ansiães ,liga-nos quando está a fazer a ordenha automática a trezentas ovelhas, cujo leite vai para uma fábrica de queijo da serra da estrela. Mas nesta edição quero-vos falar da forma artesanal como o tio Delmino Ferreira, de Grijó (Bragança) de quem já falámos da sua vida de pastor nesta página, ele que todos os dias entre as seis e meia e as sete da manhã, vai mugir as suas cabras de raça preta de Montezinho, que segundo ele é um animal em vias de extinção, tentando já fazer cruzamentos mas sem sucesso. Como só são mugidas uma vez por dia, dão cerca de um litro e 200 ml. Também nos contou que o leite de cabra é um dos melhores leites do mundo, pois só tem 3,3g de gordura por litro. Refere também que só são necessários cinco litros para fazer um queijo de quilo. Algum do leite é distribuído por alguns vizinhos e restante é aproveitado para fazer queijo para consumo próprio.

Agora vamos à confeição do dito queijo. Depois de mugir as cabras directamente para uma vasilha, côa-o, pois pode conter impurezas, deita-lhe sal, mexe e acrescenta-lhe o coalho, 

à base de essência de cardo mas segundo ele, quanto menos coalho levar o leite melhor sai o queijo e se o coalho for acrescentado logo após mugir, a coalhada  fica pronta em 30 a 35 minutos. Em seguida é posto nuns aros próprios que se vão apertando várias vezes até sair o soro todo. Diz ele que ao fim de 24horas já se pode comer queijo fresco. Para o queijo curado é necessário um mês. No tempo da avó dele a seca do queijo era em cestos de vime, que para durarem mais tempo eram untados com azeite. Chegavam a guardá-los durante um ano. Acrescenta ainda que a preparação do queijo começa na alimentação das cabras, pois elas comem aquilo que gostam.

Para terminar vamos conhecer melhor a cabra preta de Montesino através da ANCRAS.

 

Cabra Preta

de Montesinho 

 

Breve descrição da raça

Aspecto Geral: Estatura mediana, de pelagem preta a castanha muito escura, com pêlos curtos, lisos, muitas vezes brilhantes.

Cabeça: Média, comprida, de perfil rectilíneo, fronte estreita e ligeiramente abaulada; chanfro largo e rectilíneo, focinho fino; boca pequena e lábios finos; orelhas compridas horizontais ou mais frequentemente semi-pendentes, cornos pequenos, com base de secção triangular, lisos, dirigidos para trás em forma de sabre, com hastes paralelas ou ligeiramente divergentes. Bastantes exemplares inermes. Barba predominante nos machos.

 

Tronco: Pescoço comprido, mal musculado, bordos rectilíneos com ou sem brincos; linha dorso-lombar quase direita; dorso e rins descarnados e rectilíneos; garupa descaída; cauda curta. Tronco ligeiramente arqueado; abdómen regularmente desenvolvido; úbere bem desenvolvido de mamas cónicas, com tetos grandes pouco destacados, pendentes ou ligeiramente dirigidos para a frente.

 

Membros: Finos, resistentes, com unhas pequenas e rijas.

 

Área geográfica

Nordeste de Portugal, nomeadamente nos concelhos de Bragança, Vinhais, Vimioso e Alfândega da Fé.

 

Aptidões Zootécnicas

Carne – Leite

 

ANCRAS