Eu ainda sou do tempo em que...

Ter, 20/02/2018 - 10:13


Olá familiazinha!
Embora muito pouca, é melhor do que nada a chuvinha que nos tem visitado.
É preocupação de todas as pessoas que desabafam connosco a pouca chuva que tem caído, porque as barragens, rios e ribeiros estão ainda com muito pouca água nesta altura do ano.
Já temos mais um Entrudo em cima da pele! Apercebi-me que o Carnaval ‘ressuscitou’ em algumas aldeias este ano. Enquanto antigamente se brincava ao Carnaval de forma espontânea, agora tem sido organizado, com direito a jantar, baile e desfile com tractores alegóricos, como aconteceu na freguesia de S. Julião de Palácios (Bragança) onde, pelo segundo ano consecutivo, o Grupo de Gaiteiros e Bombos da Lombada se encarregou de organizar o Carnaval.
Na última semana também se festejou o Dia dos Namorados e a nossa família tem bons exemplos de namoros que duram há muitos anos, como é caso do tio Amadeu Rocha e esposa, namorados há 67 anos. Muitos dos casais que nos telefonaram nesse dia também há mais de 50 anos que namoram.
Estiveram de parabéns o tio José Maria (62), de Seara Velha (Chaves), a tia Ester (73), do Bairro do Couto (Bragança), a tia Adília (80), de Penas Róias (Mogadouro), o tio Eusébio (56), de Baçal (Bragança) e a nossa grande padeirinha, de Lagoa (Macedo de Cavaleiros). Que continuem a contar os Entrudos.
Agora vamos à gente que é do tempo em que…

... “o dinheiro era pouco e o pão pagava tudo”

Na passada sexta-feira leccionamos na nossa universidade da vida a avença que as pessoas tinham de pagar ao pároco, ao barbeiro, ao dono do touro, ao ferreiro, ao médico, ao coveiro, a quem se pagava uma quarta (4 quilos) e, regra geral, para tudo, até para comprar as sardinhas, quando o pagamento era feito em alqueires e razões de trigo e/ou almudes de vinho, para quem o tinha. Alguns exemplos disso são os que nos conta a tia Brigida, de S. Martinho de Angueira (Miranda do Douro) que tinha um irmão barbeiro onde os mais velhos iam fazer a barba cada 15 dias e pagavam por ano um alqueire, mas os mais novos que iam todos os sábados tinham de pagar dois alqueires. A tia Isolina, de Valpaços, contou-nos que o pai era sardinheiro e recebia por cada quarteirão de sardinhas (25 sardinhas), batatas, castanhas, trigo, centeio ou vinho e os filhos é que se encarregavam de recolher e dividir esses víveres. Também o tio Belmiro, de Grijó (Bragança) nos contou que ‘desviou’ um alqueire de centeio ao seu pai para comprar o primeiro guarda-chuva que teve. Algumas esposas, sem os maridos saberem, também ‘desviavam’ para comprar coisas para elas. A côngrua do padre importava num alqueire por ano e quem colhia vinho, além do alqueiro dava também um almude de vinho. Conclusão: antigamente tudo se pagavam com pão!...

... era tradição oferecer um
galo à senhora professora
Quando as escolas primárias das nossas aldeias, vilas e cidades, estavam cheias de alunos, era tradição, pela altura do Carnaval, oferecer o melhor galo da localidade à professora primária. A tia Áurea, da Especiosa (Miranda do Douro) ainda é do tempo desta tradição e conta-nos aqui como as coisas se passavam naquela altura:
“A última vez foi quando a minha filha estava na escola e o meu falecido sogro era carpinteiro, Deus o tenha no céu, e fez o andor para o galo mais bonito que houvesse na aldeia, que era tradição dar à professora no dia de Carnaval e que era comprado por todos os pais dos alunos. Depois do galo todo enfeitado com fitas ia o povo a acompanhar o andor que era levado pelos alunos a dar a volta à aldeia, ao som de bombo e caixa, antes de o entregarem à professora em sua casa, onde à porta era lido o testamento do galo e que rezava assim:
Não haverá quem me alivie, nesta minha tão grande sorte?
Esta noite se está lendo a minha sentença de morte
E estou tão atribulado nesta minha despedida
Que deixar-vos nesta hora, de certo me custa a vida.
Porém, antes que escrevam esta sentença derradeira
Quero também despedir-me das amantes companheiras
Galinhas minhas amigas, com quem sempre acompanhei
Vinde todas e vereis ao estado a que cheguei
E nisto que vos digo, tomai sentido e alento
Que principio agora a fazer o meu testamento:
Deixo as penas do corpo, por serem as mais honestas
Às beatinhas da moda, para se enfeitarem nas festas
Deixo as penas do rabo, por serem as mais brilhantes
Às meninas solteiras, para darem aos seus amantes
Deixo as unhas das patas, para as mulheres viúvas
Para de noite se arranharem, quando morderem as pulgas
O papo, que durante a vida me tem servido de celeiro
Deixo ao homem mais honrado, para bolsa do seu dinheiro
Deixo o bico ao galo mais fraco
Para quando fizer barulho, faça mais um buraco
Deixo as minhas tripas e tudo o demais em demasia
À mulher mais rabugenta que houver nesta freguesia.
Depois batiam-se as palmas e a senhora professora dava rebuçados e era uma alegria.”