Uma nova União na velha Europa?

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Dizem os entendidos que o Continente que hoje é conhecido como Europa já seria habitado pelo Homo sapiens há mais de 35 000 anos. Imagine-se quantos seres humanos desde então aqui viveram, por aqui passaram e daqui partiram. E em quantas guerras, revoluções e festas se envolveram. Gentes que os séculos acabaram por congraçar em nações de culturas diferenciadas, mas obedecendo a uma matriz comum, amálgama sólida de duradoiros preceitos gregos, latinos, judaicos e, sobretudo, cristãos. Europa que é hoje o expoente da democracia, entendida como liberdade, civilidade, tolerância, progresso e justiça social. Não é de estranhar, por isso, que os países europeus sejam, no presente, o destino mais desejado de milhares de migrantes vindos de todas as partes do planeta, atraídos, para lá do mais, pelo desafogo económico. Tanto assim é que cidadania europeia deixou de se aplicar apenas aos autóctones e se alargou a todos os estrangeiros que cumpram os critérios estabelecidos, ainda que muitos haja adversos aos consagrados valores europeus. Certo é que inúmeras aventuras e desventuras, tamanha diversidade e tão repartido poder, obstaram a que a Europa nunca até hoje se tenha constituído num único Estado. Só mesmo com a dolorosa expiação colectiva dos dois maiores conflitos armados de todos os tempos surgiu o simulacro de um proto-estado a que presentemente se chama União Europeia. É muito importante, por tudo isto, que todo e qualquer cidadão europeu, independentemente da sua nacionalidade, ideologia ou classe, reflicta no presente o futuro imediato da Europa. Porque é por demais óbvio que a invasão da Ucrânia pelas hordas do perverso Putin já constitui um marco na História Universal em geral e da Europa em particular, muito embora as suas implicações ainda estejam em desenvolvimento. Já se pode dizer, de facto, que há uma Europa antes da invasão e outra depois, sendo por demais evidente que a governança antecedente foi, em muitos aspectos, um fracasso lamentável cujos malefícios estão agora a vir ao de cima. Governança que ficou marcada pela divisão norte-sul, com os estados do sul a procurarem usufruir da riqueza dos do norte e estes, com a Alemanha à cabeça, a pretenderem impor as suas regras aos do sul, valendo-se de dádivas e facilidades aparentemente gratuitos. Foi a Europa da mítica Ângela Merkel e do inefável Jean-Claude Juncker. A Europa do “Porreiro pá!”, de José Sócrates e Durão Barroso. A Europa vazadouro de artefactos chineses inúteis. A Europa vítima indefesa dos radicais muçulmanos. A Europa dependente dos americanos, sobretudo no que à sua defesa diz respeito. A Europa presa fácil de Putin que terá corrompido políticos, partidos e formadores de opinião em proveito dos seus projectos sinistros e tornou vários países totalmente dependentes do fornecimento de gaz natural russo e não só. A situação está agora a mudar com essa criminosa invasão que, por mais sacrifícios que esteja a causar, levou a que se instalasse na Europa uma dinâmica de unidade nunca antes vista. Sobretudo desde que Ursula von der Leyen, honra lhe é devida, assumiu a presidência da Comissão Europeia, o cargo com mais poder na União, como se sabe. E como melhor se viu com o notável e corajoso discurso sobre o estado da União que proferiu recentemente em Estrasburgo do qual respigo as passagens que reputo da maior importância. Discurso em que Ursula von der Leyen apontou medidas muito concretas e pragmáticas para atacar os problemas do presente, como sejam a dependência energética e a inflação e definiu caminhos claros para o futuro, designadamente no que à segurança e defesa colectiva diz respeito. E mais disse, cito, que “no próximo ano, a Comissão apresentará medidas para actualizar o quadro legislativo europeu em matéria de luta contra a corrupção, de forma a sancionar com mais rigor crimes como o enriquecimento ilícito, o tráfico de influência e o abuso de poder.”. Sendo de assinalar também o propósito declarado de tributar empresas que apresentem lucros extraordinários. Medida esta que tantas hesitações e relutâncias tem causado ao governo português, vá-se lá saber porquê, dado que se trata de ganhos excessivos que oneraram os consumidores. Ursula von der Leyen, que em deslocação imediata a Kiev prometeu que a União Europeia irá, continuo a citar, “enfrentar a Rússia o tempo que for preciso”, assegurando igualmente que “Putin falhará e a Ucrânia e a Europa prevalecerão”. E rematou o seu discurso com esta ideia lapidar: “A Democracia não está fora de moda. Deve, sim, actualizar-se para continuar a melhorar as vidas das pessoas”. Importa ter em conta que foi a democracia que derrotou Hitler, Estaline e outros facínoras e que será a democracia a derrotar Putin. E que só a democracia será capaz de unir, em absoluto, a Europa. Porque só a democracia é verdadeiramente revolucionária e capaz de se salvar a si própria.

Henrique Pedro