A penúltima estadia

Não se trata duma questão de créditos públicos ou de meios privados: nunca será agradável dizer-se, quando entrarmos para ali, voluntariamente ou forçados, num lar de terceira idade onde será o nosso último alojamento enquanto vivos, a nossa penúltima morada. Qualquer que seja o nosso estado físico ou mental, qualquer um compreenderá muito bem a mensagem e quando nos “depositarem” provisoriamente, é bem claro que é para passar entre essas paredes novas o resto dos nossos dias.

Que lhe chamemos Ehpad, lar de terceira idade, residência sénior ou Residência dos sonhos o resultado dum internamento desses é sempre o mesmo aos olhos dos visitantes. Se os houver. Estacionam o carro no parque, com a maior das delicadezas. Através das enormes portas de vidro, entreveem as cabecinhas branquinhas em cadeiras rolantes ou fixas, cabeças inclinadas para o chão ou, quando dormem, para o lado.

Depois de se atravessar a porta é possível saudar a companhia toda. Ninguém liga nem responde aos “bom dia minhas senhoras e senhores”. Na receção não está ninguém. Fugindo pela esquerda, vai-se por corredores onde outros pensionários se encontram estacionados num silêncio pesado. Parecem estar mais ou menos bem. Cruzam-se olhares cansados, esboços de sorriso, gestos com a mão, desajeitados e pouco naturais. Por fim vê-se chegar uma blusa duma ou doutra cor. “Venho visitar a Sr.ª Tal.” “Quarto 22, primeiro andar”. Deve estar a terminar a sua sestazita de certeza.” Com um gesto, indica o elevador. Será, nesta fase, o único contacto com a administração da instituição a quem foi confiado, um dia de extremo cansaço e de péssima consciência, o cuidado de guardar o vosso ente querido, aquela senhora idosa algo desorientada que andava meio perdida na rua ou se enganava à procura do seu próprio quarto.

Aqui, toda a gente sabe, toda a gente adivinha e é perfeitamente claro. Não se está ali para brincadeiras mas sim para esperar a morte, o mais calmamente possível, sem desarranjar a vida dos ativos. Para entreter algumas ilusões, deixam levar um móvel ou outro bem encerado com gavetas onde estão conservados os tesouros dos tempos de glória; fotografias dos netos, folhetos sobre o Lar, imagens da virgem Maria ou de S. António, fotos de Fátima, um bloco de notas onde já não há força para escrever seja o que for. Uma agenda vazia. Rebuçados para a tosse. Um fio de cor sem qualquer significado. Uns postais de boas festas. Um livro talvez.

Com efeito, o que significa “esperar a morte”? Estar mergulhados numa meditação profunda, estruturada, com entrada, desenvolvimento e conclusão? Não, será mais uma lenta cascada de pensamentos sem ordem nem estrutura. Sonhos lânguidos, imagens moles que circulam no que resta de sensações e de cérebro vivo. Espera-se pela hora do almoço anunciada pelo remoinho ruidoso dos carrinhos para o lado do refeitório. Blusas coloridas dançam à volta, uma delas compõe a manta mal posta no colo dum senhor, endireita umas pobres costas meio inclinadas.

Durante a tarde, simpaticamente, são propostas “actividades” ou “animações” que agradam muito a alguns e muito pouco a outros. Porque mesmo aqui há espíritos mais fortes, geralmente os homens, que guardaram a força de desprezar tudo o que está ao seu alcance, homens que, toda a vida, se mostraram esquisitos perante o colectivo sobre o tema do “muito pouco para mim isso”. Envelhecemos tal como fomos. A senhora trémula treme com todos os membros enfraquecidos, a medrosa tem medo até da sua sombra e sobressalta ao mínimo ruído, o amuado melindra-se incessantemente.

Todas estas descrições serão excessivas? Na ótica de muitos, parecerão mesmo desesperantes, caricaturais e demasiado negras. Contudo são imagens que nos vêm espontaneamente ao espírito quando ouvimos, episodicamente, que o debate público versa sobre o tema dos lares de terceira idade insuficientemente dotados em créditos, em lugares, em pessoal, em conforto e em número.

Pode acontecer que algumas recordações de felicidade fugitiva saiam do cérebro quando se pensa num aniversário organizado com os filhos para os 95 anos da tia Maria ou quando a avó perto dos 100 anos que adorava Jesus e o vinho do porto mostrava um pequeno sorriso quando bebia um copinho. Mas estes momentos de alegria cheios de sorrisos e de recordação dos tempos passados seriam de alegria aos olhos dos pensionários eles-mesmos? Ficávamos contentes do efeito aparente das nossas visitas pouco frequentes. Aliviávamos as nossas consciências. Sabíamos que repartiríamos para a “verdadeira vida”, fora, com o ruído dos carros, das motas que atravessam a cidade como foguetões estridentes. À noite, projetávamos os nossos próprios futuros. Como é que serei eu com essa idade? Qual o melhor lugar para se preparar para morrer? Num hotel cheio de sol no Algarve, numa casa na aldeia? No hospital onde nos conduziria talvez a doença que não esperávamos ter? Em casa, claro, sonhávamos com isso: onde a dignidade dos humanos passa por uma autonomia continuada e com referências estáveis. A nação não sabe o que fazer com os seus mais velhinhos, estes além de seniores, aqueles para além da terceira idade, estas pessoas da última idade, impotentes muitas vezes, esgotados e desfeitos quase sempre, perdidos, e que ficam muito caros à comunidade. Os profissionais que os acompanham para as últimas circunstâncias das suas existências são duma entrega sem limites: faríamos nós a metade do que eles (sobretudo elas) fazem por esses campesinos? O seu tratamento é um dos maiores escândalos da nossa República. Antes de nos lamentarmos sobre a nossa sorte de vivos provisórios pensemos nesta parcela de humanidade que amontoamos nestas penúltimas estações antes da auto-estrada da vida eterna e que tenta conjurar o medo ancestral perante a morte e resistir à angústia da nossa finitude.

Na sabedoria da noite, deve haver lugar para a serenidade e o abandono. Temos a vida toda para nos prepararmos. Agradeçamos desde já aos que nos poderão ajudar, perto do fim.

Adriano Valadar