As “pelotas” do desespero

Os inícios de cada ano são sempre difíceis. Persiste tudo aquilo que o ano anterior não conseguiu “desembaranhar”, e todas as dificuldades, segredos, enigmas, desafios, que colocou na paisagem das nossas existências enroladas agora em cachecóis de nevoeiro. A minha mãe repete isto com alguma regularidade, a vida é complicada (eufemismo). No entanto, a sua vida está reduzida agora a uma infinidade de nadas que se repetem, quase transparentes como as suas mãos que ainda vão fazendo meias coloridas com pelotas da Rua Nova. Mas as nossas vidas são, até ao fim, o lugar frágil e precário destas lutas obstinadas, por vezes grandes mas a maior parte das vezes sombrias, e sem que tenhamos verdadeiramente a certeza nem de vencer nem de ter totalmente fracassado. Será que vamos sempre saber amar os outros? E dizê-lo? E nós mesmos, poderemos contar sempre com o seu amor? Como é que é possível conciliar os desejos, os deveres, as obrigações, as vontades? E onde encontrar a força para cada dia avançar alguns passos mais?

Guardei da minha infância a recordação de muitos serões densos, envencilhados como pelotas de fios, onde nenhum de nós – com um pai muito ausente – sabia como alegrar um pouco os outros nem desfazer os cordéis desta existência confusa que formava uma infinidade de minúsculos nós embaralhados.

Na pequena lojinha de cada vida humana, todos gostaríamos de ter tudo arrumado de forma impecável, todas as cores da alegria e da tristeza bem distintas, as dos sucessos e dos fracassos. Gostaríamos de encontrar, sem ter de procurar muito, uma solução para cada um dos nossos problemas, uma resposta simples para as nossas perguntas. Mas ficamos quase sempre confusos, embaralhados numa confusão de fios. Somos então obrigados a mergulhar nas traseiras da loja, mal iluminada, e na desordem, sem sabermos muito bem se isso nos irrita, nos assusta ou nos comove.

Espaços sentimentais, bazares da existência, mercearias desertas mantidas pelas mesmas velhas pessoas, as últimas que sabem onde se encontra o quê, em que gavetas sombrias e desordenadas. Ninguém, a menos de ser obrigado, pretende entrar nesses escuros e íntimos armazéns dos nossos corações e das nossas almas. Estas lojinhas de humanidade onde cada um tenta, desajeitadamente, puxar uma ponta do fio da sua vida e das suas inúmeras pelotas que se chamam desespero, desencorajamento, inveja, discussão, rancor ou tristeza… A ideia finalmente não é tanto encontrar o fim, mas sim conseguir a paciência de desfazer uma pouco mais cada dia estas temíveis pelotas. E ter a curiosidade de visitar o claro-escuro da nossa loja, procurar os sentimentos mal arrumados, as nossas emoções, os projectos perdidos, os nossos desejos vazios mas tenazes.

Aí pode-se cruzar uma senhora idosa e cansada, que se parece estranhamente com a minha mãe hoje. Deixa cair silenciosamente as suas mãos usadas, cansadas pelo insucesso dos seus esforços. Ou então uma filha que acaba de adquirir um belo vestido com o tecido e as cores do amor. Ou ainda uma amiga perdida nos seus pensamentos, com a sua pelota de lã escura que aperta contra o peito. Por vezes cruzam-se pessoas tranquilas e benevolentes que passam algum do seu tempo connosco, a desembaralhar todas as nossas desordens bem vivas. Muitas vezes desconhecidos. Alguém mais afável. Soldados anónimos na frente tenebrosa das nossas vidas. Alguns com aquelas tesouras enormes e bem afiadas. Assustam-nos. E compreendemos deste modo que algumas feridas são necessárias. Vamos descobrindo que o fio da vida é assim feito de nós, de cortes, de emendas, mal feitas e pouco sólidas. Dura o que durar, diz a minha mãe ao coser um botão ou tricotando o calcanhar das meias ou das roupas rotas ou rasgadas. Tantas coisas que estão presas por um fio, um fio usado em certos sítios, refeito com mil e um fios multicolores.

E o mais espantoso, é que continuemos a ter ainda a força e o desejo de continuar a remendar ou a redecorar tudo isto, a procurar todos os dias na parte mais recuada da loja para encontrar o fio que nos salvará. E nos desenrascará mais algum tempo. Na escuridão, na desordem, o mais reconfortante é fazer parte de toda essa gente, com os nossos fatos de arlequim, cosidos com diferentes pedaços de humanidade, com pedaços recuperados. Cuidado com as lojas demasiado iluminadas e ricamente decoradas, bem ordenadas, com as etiquetas bem visíveis sobre tantas coisas desejáveis. Continuemos a procurar nas traseiras das nossas lojas. Aí não encontraremos o segredo da felicidade nem as receitas do sucesso, mas enfrentaremos a possibilidade de continuar a coser os nossos segredos mais difíceis com doçura e indulgência.

É aqui, bem no fundo desta loja de humanidade que vimos encontrar o silêncio, a presença, sonhar, tentar, reparar as nossas vidas. Uma forma de ecologia, finalmente. Preservar o que deve ser preservado, nem que seja um bocadinho de fio sem pés nem cabeça. Ajudará a viver melhor mais um ano.

 

Adriano Valadar