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Oito de Março

Se tivermos em consideração a qualidade e os diversos graus de infelicidade das nossas Mães e Avós dos tempos até aos anos oitenta do século passado (estou a ser generoso) temos de concluir o óbvio: a maioria dessas Heroínas sofreram no corpo e na ânima persistentes trovoadas relampejadas de toda a casta de sofrimentos, quantas vezes raios a tirar-lhe a vida ou deixá-las tolheitas até ao fim dos seus dias. Não adianta colocar paninhos quentes nas bubas violentas arrecadadas ao longo das suas existências, não vale a pena soletrar palavras compungidas de remorso ou hipocrisia, as Mulheres na sua esmagadora maioria foram obrigadas a quase diária invenção no propósito de minorarem as dificuldades incluindo a de suportarem agruras por serem consideradas inferiores, quantas vezes a um nível mais baixo do que os animais domésticos a viverem nos seus lares.
Trazer e tecer considerações piedosas acerca da subalternidade da diferenciação social fica bem na lembrança de efemérides caso do dia oito de Março, pouco atreito a tal até porque considero ofensiva esta data a menoriza-las, pura e simplesmente as Mulheres têm direito (era o que faltava!) a em todos os dias do ano a ser iguais à outra parte, os Homens, na bonança e na tempestade, nos deveres e obrigações, no usufruto de bens espirituais e materiais, enfim…no viver vivendo conforme os seus códigos de conduta, convivialidade e circunstância na plena assumpção da unidade na diversidade religiosa, política e social. Tudo o resto é supérfluo e trivial, tanto como as simplistas ou simplórias campanhas das feministas implicadas nos movimentos da sua Maiorização.
As pensadoras femininas do calibre de Susan Sontag e Camille Paglia nos seus incisivos comentários evidenciaram o ridículo as possessas do feminismo, a exigente académica Paglia colocou a nu as dogmáticas senhoras, lembrando o óbvio – o despotismo masculino – combate-se dia a dia, hora a hora, se for necessário imitando Lisístrata (famosa comédia de Aristófanes) sem peias ou recuos.
O leitor fingirá não ter percebido o feito de Lisístrata, a leitora pensará: esta crónica é uma rematada hipocrisia porque ou estou esparvoado ou procuro esconder debaixo da manta de farrapos humanos a longa história de humilhações cometidas contra as mulheres, a bem viva violência doméstica desculpada aqui e onde não o deve ser, toda uma cultura de afundamento da personalidade das queridas Mães casadas com os queridos Pais, as violações verbais e físicas. Nem estou esparvoado, nem desconheço a história, muito menos o clima tendente a ilibar os pecadores, agressores e criminosos por torturarem, mutilarem e matarem.
Todo aquele que comete acções criminosas deve ser punido, os culpados não podem ficar impunes, as polícias e os tribunais existem e entre as suas finalidades a maior é garantirem a segurança dos cidadãos. Nem mais, nem menos. No entanto, os créditos das mulheres vão para lá da segurança corporal, no tocante ao espiritual a cousa fia mais fino, a filósofa Hanna Arendt escreveu sobre a banalidade do mal, dado admirar a discípula afeiçoada a Heidegger (é verdade) penso na ingente tarefa das mulheres se convencerem a si próprias na necessidade de repudiarem a banalidade em aceitarem e acharem normal incursões alheias ao seu telemóvel, às suas contas nas redes sociais, às suas contas bancárias, à sua correspondência, aos códigos dos cartões de crédito, tudo isso também considero quebra de respeito pelo íntimo e complexo edifício feito de pedaços das suas vidas. Se fosse há anos escreveria: Segredos!
Sim, eu sei, toquei no baralho de cartas prenho de ciúmes, dos ciúmes. E, manifestar ciúmes pode redundar e redunda em tragédias. O filósofo Nietzsche designou de Amor Fatti a exigência do bem e do mal no comportamento do homem, daí o Amor Fati é a emanação da teoria do super-homem, dando consistência à valoração do Homem mais forte, mais dotado, construtor de impérios e aniquilação dos mais fracos, menos dotados. Trago à colação o autor da Gaia Ciência não no sentido de repetir o dito mil vezes acerca do efeito dos seus escritos no concerto das Nações, sim na convicção do seu super-homem, Homem Novo, não ser alheio às representações do «que, posso e mando» sobre as mulheres num alarde de fraqueza intelectual ante a insofismável verdade – a Mulher e o Homem – são seres cuja formulação no corpo difere, no espírito não têm diferença. Os émulos do super-homem possuídos do temor e tremor (Kierkegaard) abusam da condição física, económica e postulados sociais a ampará-los nas tentativas quantas vezes exitosas de colocarem as mulheres nas masmorras da liberdade. A reacção é conhecida, delas e deles.

Armando Fernandes