O novíssimo fado lusitano

A canção nacional por excelência é o fado muito embora haja quem considere que o dito cujo, que também é sinónimo de pândega e de farra, apenas merece o epíteto de canção de Lisboa.
É verdade que em Coimbra e no Porto também se canta fado regularmente e por tradição mas o de Lisboa é, sem dúvida, o mais escutado e popularmente consagrado.
Lisboa é, portanto, a verdadeira capital do fado, com casa de maior solenidade e tradição no palácio de S. Bento, sede da Assembleia da República, paredes meias com a morada oficial do primeiro-ministro.
Desta boa, ou má, vizinhança advém uma vantagem de grande significado: o fado que o primeiro-ministro Costa concerta e canta é prontamente acompanhado ao vivo pelo seu grupo de guitarristas privativo, em que pontifica o desafinado naipe de cordas da Geringonça.
Cujos acordes são perfeitamente audíveis, ali perto, nos jardins suspensos do palácio de Belém, onde o presidente Marcelo, embevecido, os escuta e aplaude com muito afecto.
Até há pouco tempo, o fado tradicional, menor e vadio, feito de desgraça, crime, ciúme, mentira e traição, que muitos maldosamente baptizaram de fado democrático, era o mais cantado por ministros, deputados e jornalistas na sala dos Passos Perdidos do palácio de S. Bento.
O fado da moda, porém, embora dê continuidade à tradição do vira o disco e toca o mesmo, é o novíssimo fado lusitano que tem superior desempenho do fadista Mário Centeno e primoroso acompanhamento à guitarra portuguesa de seis pares de cordas e um sem número de cordelinhos, do mestre guitarrista António Costa.
Este novo paradigma do fadário português que agora é tocado em ré maior, tonalidade mais alegre e viva, ignora os réus maiores, os escândalos, as tragédias, os muitos casos de personalidades de topo do Regime que andam emaranhados nas malhas da Justiça.
O próprio primeiro-ministro António Costa mais uma vez deu o lamiré deste novo fado, com a sobranceria que se lhe conhece, quando afirmou, a propósito da investigação de que o titular da pasta das Finanças está a ser alvo, que este “em circunstância, alguma sairá do Governo, mesmo que venha a ser constituído arguido”. Que é como quem diz: alto e para o baile, que quem manda aqui sou eu e a justiça sou eu que a faço!
É o Regime no seu máximo esplendor!
Posto isto, que ninguém se espante se um grupo de deputados, ad hoc e à socapa, incapazes de se entenderem quanto à transparência, decretar que os titulares de cargos políticos passam a gozar de impunidade criminal, total e vitalícia.
Na práctica, foi o que aconteceu, até há pouco tempo, por longos e felizes anos de democracia, em que o regabofe partidário levou o Estado à falência e os “donos disto tudo” sub-repticiamente fizeram valer a sua lei.
Estamos, agora, perante um fado novo, sem dúvida. Que não evoca desgraças e tristezas passadas e antes canta fortunas e sucessos presentes e futuros, mas continua a predispor os portugueses, como convém, para dar de beber à dor, se embriagarem com futebol e telenovelas e a remetê-los para a abstenção eleitoral.
Assim é que, a ajuizar pelas letras deste novo fado, que é como quem diz discursos governamentais, não haverá mais incêndios florestais no verão que se avizinha. Deus queira que não. E secas, se chover, também não.
Igualmente foi concedido ao povo saber que não houve assalto nenhum ao quartel de Tancos como o ministro da Defesa previra e que tudo se ficou a dever à irresponsabilidade de magalas infelizes.
E mais! A dívida pública nacional, que é das pesadas do mundo está garantidamente controlada, a carga tributária aumentou mas as famílias vão pagar menos (será?!), muito em breve alcançaremos o pleno emprego e os emigrantes vão regressar em massa, agora que as multinacionais tecnológicas, como a Google e Amazon, se aprestam a montar tenda em Lisboa e no Porto. E em que outras terras haveria de ser se a competência e prestígio dos nossos governantes não dá para mais?!
Quanto ao nosso querido Trás-os-Montes espera-se que continue a ser a reserva natural que sempre foi, espécie de jardim zoológico, com raros indígenas pasmados a ver passar os comboios e os navios do Tua.
Muito felizes serão os transmontanos se os seus autarcas e deputados deixarem de se dar ao desfrute de alienar e deixar estragar o muito de bom que ainda lhes resta.

Henrique Pedro