O murmúrio dos Nossos

As flores que depositámos, piedosamente, sobre as pedras tumbais dos que nos precederam, no carreirão dos vivos, não vão certamente passar o Inverno que começa a mostrar-se de forma séria. Nós sabíamo-lo quando as levámos, que não teriam mais sorte do que um contrato de curta duração concluído à pressa, já adivinhávamos que os raminhos orgulhosos dos crisântemos com generosas flores brilhantes cairiam rapidamente sob o efeito da lei da gravidade húmida e que as pontas das flores se endureceriam para as fazer cair antes da nossa próxima visita.

É sem dúvida uma bonita tradição a que vê afluir, todos os anos, com data fixa, montões de flores ao nosso mercado, às nossas floristas de passagem, para serem depositadas nos cemitérios das nossas aldeias e cidades. Uma tradição que não cede apesar do triunfo do hedonismo e da erupção suposta da pós-modernidade e da revolução dos meios de comunicação. Os vivos ainda têm um coração que recorda. Este hábito, nada o desencoraja, nem o trava, exceto as distâncias que a vida moderna, cruel, colocou entre nós os vivos e os nossos mortos.

Mas esta distância só tem explicação pelo silêncio de uns e dos outros. Não ousamos suficientemente falar aos defuntos e, além disso, não sabemos escutar os seus murmúrios. O que os mortos sussurram ao ouvido dos vivos. Não é preciso ser medium para o ouvir. Basta, por exemplo, que nas alas dum cemitério se preste o ouvido, com humildade, calando os ruídos, o alvoroço das nossas atividades e dos nossos pensamentos, o ronronar das nossas preocupações. Falemos com os que partiram, pelo menos uma vez por ano. Digamos-lhes mais uma vez que os amávamos mais do que conseguíamos por vezes dizer-lho. Em compensação, eles saberão perfeitamente falar-nos com a doçura dos seus pensamentos de após-vida.

Que nos ensinam estas dezenas de milhares de defuntos que jazem em baixo do cascalho onde lamuriam os nossos prudentes passos? Por vezes ouve-se isto: “ Parai com essa agitação, acalmai-vos … Ouvi as lições das nossas vidas amputadas de uma parte dos nossos projetos e das nossas ambições. Também nós tínhamos apostado no futuro risonho e rentável, nós também acreditávamos na virtude do dinheiro, nas facilidades do poder, e depois, um triste dia, catrapum, foi necessário desistir e deixar o palco em que parecíamos acreditar no papel que representávamos. Perdemos tudo nesse dia porque, como é sabido, os lençóis não têm bolsos. Nem para as carteiras nem para os revólveres. A não ser para a nudez lisa das roupas de aparato onde foram endomingados os nossos corpos enfraquecidos para nos tornar apresentáveis perante o túmulo”. 

E continuam: “ Ouvi o silêncio que é o nosso. A nossa imensa multidão não faz nenhum barulho. Nunca nos alinhamos em cortejos vingadores. Não há manifestações entre nós, nas alamedas sombrias dos subterrâneos que ocupamos, apertados uns contra os outros, como uma grande fraternidade post-mortem. Somos por fim iguais perante o destino, frente ao tempo, e tudo isso para a eternidade; pensai, quanta paciência e abnegação para chegar a esta sabedoria final dos enterrados, dos desaparecidos, nós os vossos queridos desaparecidos.“ Inspirai-vos, nossos queridos vivos, nas lições desta constatação simples que ilustramos através do nosso recolhimento e através do que, sentimo-lo bem, vós mesmos observais diante das nossas campas floridas.

E concluem: «Obrigado por estas flores que cobrem as nossas tristes lápides onde fizestes gravar as nossas identidades. Como vós, nós adivinhamos que o vento, o gelo, a chuva, a CO, acabarão por apagar mesmo estes traços das nossas identidades terrestres e dos dois milésimos que resumem o todo das nossas vidas. A este perverso trabalho do tempo, devemos antes de mais aceitá-lo, porque todos já o compreendemos enquanto vivos, quando nós mesmos vínhamos visitar os nossos antepassados nos velhos cemitérios meio negligenciados das nossas aldeias. Interrogávamo-nos sobre as pedras abandonadas, sobre as datas não compatíveis, sobre as datas já invisíveis… Tende piedade, ó vivos, pensai em nós antes de vos juntardes a nós, sede vigilantes sobre o estado das nossas últimas moradas que também serão as vossas e, pensai sobretudo em viver cada dia na dignidade e no sério que manifestais quando fazeis esta visita anual e da qual vos agradecemos”.

Adriano Valadar