PUB.

O míssil GRECO

Um novo míssil radioactivo de vergonha e humilhação acaba de ser lançado sobre o palácio de S. Bento, coração da Assembleia da República e do Governo, abalando fortemente os pilares do Regime. 
Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, e todos os deputados sem excepção, saltaram nas cadeiras com o sopro, sendo de prever que nas próximas sessões apareçam pintalgados de mercurocromo, a marca da Geringonça, e enfaixados com inócuos diplomas anticorrupção. 
Particularmente  mal  tratado  ficou  o  seu  vizinho e  correligionário,  o  primeiro-ministro  António  Costa,  que,  atordoado,  se  manteve  mudo  e  quedo  para não agravar mais a situação.
Tal foi a amplitude do abalo que se fez sentir no próprio palácio de Belém, deixando o beijoqueiro Marcelo Rebelo de Sousa seriamente chamuscado e sem fala. Tanto assim é que, distante do povo que apaparica com abraços e beijos, ao ser interpelado pela deputada espanhola Melisa Rodriguez, (que na pessoa do Presidente da República claramente humilhou todo o Estado português,) não conseguiu disfarçar as mossas que a bomba lhe causou. 
Que fique bem claro, porém, que a organização responsável pela deflagração não é nenhum movimento terrorista ou sequer populista. Bem pelo contrário: trata-se do Grupo de Estados contra a Corrupção (GRECO), do Conselho Europeu, que tem por missão melhorar a capacidade dos seus membros na luta contra a corrupção. 
Organismo que acaba de tornar público um relatório que estilhaça a competência e a seriedade dos políticos portugueses já que refere que, em dois anos, das 15 recomendações para que Portugal reduzisse os riscos de corrupção, apenas uma foi completamente implementada, três apenas o foram parcialmente, restando onze por implementar. 
Relatório que qualifica o regime político português ainda pior que o da Turquia (pasme-se!), quando todos pensávamos que estava mais próximo da Suíça ou da Islândia. Uma vergonha inqualificável. 
Relatório que reforça palavras recentes de Ramalho Eanes, prestigiado ex-Presidente da República, sobre a corrupção e dá crédito à opinião da não menos prestigiada ex-Procuradora Geral da República, Joana Marques Vidal, que afirmou publicamente haver “redes que capturaram o Estado”.
Perante tão evidente opressão, não seria de espantar se um qualquer partido genuinamente de esquerda se propusesse libertar a Nação por meios radicais, ou mesmo se um mais sentido “capitão de abril” tomasse a iniciativa de marchar sobre S. Bento. Tal seria excessivo, em qualquer caso. O mesmo se não diria se o Presidente da República dissolve-se a Assembleia.
 Marcelo Rebelo de Sousa, porém, fica-se pelas habituais considerações abnóxias para não perturbar o arraial e nem ao menos tem o rasgo de dirigir uma mensagem inequívoca e perentória à Assembleia da República, que é uma sua prorrogativa fundamental.
Não é de admirar, portanto, que António Costa, que por todos os meios tem tentado resgatar os fantasmas do governo Sócrates de que fez parte, embalado pela desgraça do PSD e confiante na atávica credulidade dos portugueses, esteja de novo a apostar na maioria absoluta. 
Que Nossa Senhora de Fátima afaste dos portugueses tal cálice!

Este texto não se conforma com o novo Acordo
Ortográfico.

Henrique Pedro