O homem mais rico do mundo (e o português mais poderoso de então)

No ano em que passam 150 anos sobre o nascimento de Calouste Sarkis Gulbenkian (29 de março de 1869) a Fundação que tem o seu nome, no âmbito das respetivas comemorações, promoveu uma biografia do filantropo arménio, elaborada por Jonathan Conlin. O autor da obra dedicou os últimos anos a investigar a vida do homem que ficou conhecido como o “senhor cinco por cento” por ser essa a margem que cobrava na intermediação dos muitos e volumosos negócios que protagonizou no mercado petrolífero.

O livro foi financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian tendo, contudo, assegurado a mais completa liberdade ao historiador americano (com passaporte inglês e irlandês assemelhando-se ao seu biografado que tinha, igualmente, várias nacionalidades), como teve oportunidade de vincar a Presidente da Fundação, no lançamento da obra, no passado dia 24 de janeiro. Na presença do Presidente da República, Isabel Mota realçou as principais características da instituição que lidera, a filantropia e a promoção das artes, da ciência e da cultura, num espaço de liberdade cumprindo assim o desejo do fundador.

Descrito como um arquiteto de negócios, brilhante, corajoso e pragmático (“Ainda que toda a Constantinopla se mobilizasse contra mim, a minha reputação nada sofreria, pois não é na Turquia que estou empenhado em brilhar” terá afirmado), o homem que gostava de gatos, paisagens, flores e de olhar as estrelas, deixou parte da fortuna que fez com o petróleo a Portugal, numa fundação que, explicitamente, determinou que fosse internacional e perpétua e que pelo seu legado, mas também pela ação impar do seu primeiro presidente, foi essencialmente portuguesa e, sobretudo, generosa e reconhecida para com quem com ela colabora ou serve. A José de Azeredo Perdigão devemos esta instituição que revolucionou o nosso país nos pretéritos sessenta anos. Foi incansável e muito bem sucedida, a atuação do advogado português do senhor Gulbenkian na disputa que travou com o seu congénere anglicano Lord Radcliffe.

Para este sucesso terá contribuído, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, o apoio firme das autoridades de então. O Presidente da República, que adiou a sua partida para o Panamá propositadamente para estar presente na Avenida de Berna, surpreendeu tudo e todos ao imitar o homenageado que, segundo se dizia, enquanto os outros alinhavam ordeiramente na linha de partida, Gulbenkian ia direto para a meta. Assim foi o Professor, que quis partilhar com a assistência a interrogação “e se…”, entre outros cenários, se porventura Salazar pensasse ou agisse de outra forma? Poderá haver quem se questione o que pensaria o ditador da forma como era construída a maior Fundação portuguesa, mas não ele que revelou ter em seu poder vários documentos, “vindos diretamente do interior do antigo regime” que expressam e testemunham o pensamento e a vontade do todos poderoso António de Oliveira Salazar sobre o legado do homem mais rico do mundo de então.

José Mário Leite