O fogo que nos consome

Passou quase um ano depois do fatídico braseiro que incendiou o centro do país e que matou umas dezenas de pessoas e atirou outras para o desespero da ignorância, para a pobreza arrastada, para a ingratidão e para o esquecimento. O país sofreu imenso com tudo o que aconteceu. Todos lamentaram e todos prometeram que não mais haveria de acontecer semelhante atrocidade. Promessas.

De tudo isto ficou essencialmente o nome de Pedrógão e o da estrada da morte. Sinais indicadores da localização da tragédia. Não são placas. Não são necessárias! Mas são avisos que deveriam levar os responsáveis a evitar repetição. Teatros de tragédias tão grandes, que os atores pereceram em plena cena de dois atos.

Depois disto, alimentou-se o ego dos portugueses com a interajuda em prol dos que tudo perderam. Era necessário ajudar a reconstruir o que se perdeu. Chegaram muitas ajudas e em várias formas, desde roupa a dinheiro. E o que não deveria acontecer, aconteceu. Uma confusão tremenda para saber como distribuir o dinheiro e por quem. Quando há dinheiro à mistura, há confusão! Por que será?

Quase um ano depois, vem a lume a triste notícia de que o dinheiro foi manipulado por quem não devia e não chegou a quem deveria. Alguém se aproveitou do que não lhe pertencia. Será possível? Claro que sim e não me causa estranheza. Estamos um pouco habituados a estas atitudes, infelizmente.

Assim, muitos que esperavam ter a sua casa de volta, ainda não têm porque alguém resolveu desviar para proveito próprio o que a outros pertencia. E as mentiras? Mais que muitas!

As promessas do governo e as certezas de atuação em massa com milhões à mistura para assegurar o bem-estar das populações, soaram como calmantes no coração dos portugueses. Não mais haveria de se correr riscos de tamanha enormidade. Assim se esperava!

Pois assim deveria ser. Mas eis que surge de novo o fogo que nos consome a alma e nos desestabiliza o ser. Monchique volta a ser notícia pela pior causa. Uma dúzia de anos depois de ter ardido e ter reduzido toda a serra a terra queimada, volta a arder e a invadir propriedades alheias, roubando casas, terras, herdades, automóveis num autêntico caos e desorganização total. Ninguém estava à espera de coisa semelhante depois de todas as promessas feitas e de todas as garantias de segurança, quer a nível de comunicações, de organização, de meios de combate e de homens no terreno. O governo ordenou que se limpassem as bermas das estradas e dos terrenos e isso foi feito. Gastou-se dinheiro e parece que valeu de muito pouco, pelo menos nas povoações da serra por onde agora lavra o fogo terrível que põe o Algarve em sobressalto.

No ano passado acusaram o Presidente Marcelo de andar pelo meio dos locais afectados, levando algum consolo a quem precisava de se sentir amparado. Este ano, ele afastou-se e preferiu banhar-se nas águas calmas dos rios por onde o fogo lavrou no ano transacto, mas não desligou do que está a acontecer no sul do país. Mas as críticas chovem de igual forma e se elas se transformassem em chuva, certamente que o fogo se apagaria bem mais depressa.

Se daqui a uma dúzia de anos voltar a acontecer, como no Algarve, o que aconteceu em Pedrógão e em Santa Comba Dão, voltaremos a falar da tal segurança que nunca mais chega e dos riscos que todos corremos quando chega o Verão. Oxalá que tal não aconteça!

Sem haver ainda culpados e explicações plausíveis para o desaparecimento do dinheiro que deveria ser aplicado em Pedrógão e nas localidades afetadas pelo fogo no ano passado, deparamo-nos com outra situação idêntica onde casas e terras desaparecem com a voracidade das labaredas infernais que tudo consomem e deixam na miséria os seus proprietários. E agora? Questionemo-nos pois, sobre o que poderá acontecer. Quem vai movimentar os dinheiros e as ajudas para estas pobres pessoas que ficaram sem nada? O governo? As Misericórdias? Os grupos (!!!) arranjados à pressa para levantamento dos prejuízos e para a aplicação do dinheiro destinado à reconstrução das casas?

Ainda os de Pedrógão não têm as suas casas todas pelas razões que sabemos e já estas estão perante situações iguais que levam, desde já, a desconfianças do mesmo teor. Ficaram sem as suas casas e quando voltarão a ter outra? Até lá, onde vão ficar?

Afinal o fogo não consome somente a floresta e as casas, consome do mesmo modo, o nosso interior, o nosso ego e a nossa identidade.

Luís Ferreira