Nós trasmontanos, sefarditas e marranos - António Pereira (Torre de Moncorvo, 1605 – Coimbra, 1652)

Nasceu em Torre de Moncorvo, pelo ano de 1605, no seio de uma família de mercadores e rendeiros. O pai, Domingos Pereira, era de Chacim e a mãe, Maria Álvares, de Torre de Moncorvo. Esta tinha vários irmãos e outros parentes a morar em Castela. E em Castela também, encomendado na igreja de S. Martinho de Tormes, vivia um tio paterno do nosso biografado, o padre Cristóvão Pereira, facto que não deve estranhar-se, antes era frequente em famílias cristãs-novas de algum prestígio.

Porque os dois reinos ibéricos se encontravam unidos sob o trono dos Filipes e as comunicações eram fáceis, António Pereira contava pouco mais de 15 anos e já se adiantava por terras de Castela a mercadejar, conforme testemunho de Francisco Fernandes, de Miranda do Douro, em 1642:

— Disse que haverá 21 anos, indo com António Pereira (…) de Medina del Campo para Salamanca…(1)

A restauração da independência em 1640 e a guerra que seguiu vieram cortar muitas das rotas comerciais de Trás-os-Montes com Castela. António Pereira, no entanto, era já um homem de cabedal, o que lhe permitia apresentar-se a concursos para arrematação de cobrança de rendas. Assim o encontramos como rendeiro dos “Votos de Braga” em terras de Monforte de Rio Livre nos anos de 1640 a 1646 que arrematou na mesa capitular da sé de Braga por 85 mil réis / ano.(2) E também como rendeiro da comenda de Santa Maria, de Bornes, da Ordem de Cristo, arrematada por 380 mil réis /ano e das rendas que a condessa de Faro tinha em Morais, atual termo de Macedo de Cavaleiros.

Pelo S. João de 1641, a inquisição lançou uma operação de limpeza da heresia judaica em Torre de Moncorvo, operação que, ao longo de uma década, levaria para as cadeias mais de 40 pessoas e destruiria a poderosa “nação hebreia” da vila. Os primeiros a ser presos foram os seus vizinhos Manuel Henriques Pereira, a mulher e a sogra, possivelmente a gente mais endinheirada de entre os da “nação”. Coincidiram tais prisões com a ida de António Pereira para Morais, a cobrar as rendas que ali tinha. Os esbirros da inquisição logo disseram que ele ia fugir para Castela e, passando pela vila de Castro Vicente, o capitão-mor do concelho, Manuel de Aragão, aprendeu-lhe as cavalgaduras, para impedir a suposta fuga. A propósito, veja-se a denúncia feita pelo familiar do santo ofício Francisco Gouveia Pinto, o homem que conduziu António Pereira para a inquisição de Coimbra:

— Disse que, fazendo-se prisões em Sambade e Chacim, o dito António Pereira e sua mulher, vendo que algumas pessoas de Sambade e Chacim suas parentes que vinham presas, ausentaram-se da Torre de Moncorvo para Castela junto a Lagoa de Morais e aí as justiças os embaraçaram…

Interessante a resposta dada pelo réu aos inquisidores que o confrontaram:

— Disse que no tempo que se fizeram algumas prisões em Moncorvo, que segundo sua lembrança foi entre o dia de S. João e o de S. Pedro do ano de 1641, junto às casas dele réu, que ficavam em meio das casas das pessoas que se prenderam, e as casas deles ficavam desertas, e por assim estarem desertas, ele réu se não quis sair delas e sempre no dito tempo nelas assistiu, assim por guarda de sua fazenda como também de sua honra; sendo assim que tinha forçosa necessidade de ir, no dito tempo, a Morais, termo de Bragança, acudir às coisas necessárias à renda que tinha…

As casas ficavam desertas… Sim, o processo de António Pereira é muito interessante a este respeito. Pelas informações nele contidas, podemos povoar a Rua dos Sapateiros que era essencialmente ocupada por gente da nação. O licenciado João Góis era um dos raros cristãos-velhos moradores na Rua e sempre atento ao movimento da mesma. Ele e a ama de seus filhos, Úrsula da Silva, que lhe clamou a atenção para a festa que os cristãos-novos faziam, (celebrando o Kipur?) em casa de Gaspar Cardoso, onde muitos se juntaram e “na véspera antecedente mandaram da dita casa presentes como farinha em alqueires, cestas com grãos, peixe frito e cru, cestas com ovos e azeite a muitas pessoas pobres da nação, somente”.

Tudo isso foi João Góis contar ao vigário-geral da comarca, comissário da inquisição, Paulo Castelino de Freitas, acrescentando:

— Reparando ele na festa que a dita ama lhe tinha dito, pelo tempo que foi seria 1639, 7 de outubro, sentiu que se varriam algumas casas da gente da nação e suspeitou ser a dita festa, porquanto viu levar a casa de Maria da Silva, meia cristã-nova, mulher de Domingos Fernandes de Miranda, cristão-novo inteiro, louça, tachos e candeeiros em canastras a lavar-se para terem naquele tempo serviço da casa limpo. E uma mulher a quem chamam Andali, levava a lavar de casas de Manuel Nunes também o mesmo serviço. E no mesmo dia viu varrer a mulher de António Rodrigues Pinto a casa em que vive, defronte dele testemunha e a vira de tarde enfeitada de cara e cabeça com um mantéu de cochinilha que antes não costumava trazer (…) E logo ele testemunha saiu de sua casa e vindo rua arriba de S. Bartolomeu até à praça vira a loja do dito António Rodrigues varrida, da casa de cima, vira também varridas de fresco as lojas de umas moças cristãs-novas filhas da Gança e o portal da casa de Manuel Nunes e das filhas de Duarte Rodrigues, cristão-novo e da dita Maria da Silva. E também estava varrida a porta de António Pereira, o moço, e a de Francisca Vaz e de sua filha Filipa Henriques, todos cristãos-novos.

Logicamente que António Pereira se defendeu desta acusação dizendo que João Góis era seu inimigo e até tinha batido em um seu filho. Da sua argumentação depreende-se que entre eles existia alguma rivalidade política. Vejam:

— Sendo dado em confiança a ele réu, estando o dito licenciado na cadeia, para sair para ver umas festas de que era administrador, ele réu o fez tornar ao depois para a cadeia e sobre isso tiveram muitas dúvidas…

Porém, o seu maior inimigo era o familiar da inquisição Francisco Gouveia Pinto, que, em tempos, servindo no cargo de alcaide, lhe tomou um macho para, em jeito de requisição, para ir a Lisboa, muito embora António Pereira argumentasse que os cristãos-novos de Moncorvo tinham uma sentença do desembargo do Paço impedindo que lhe tomassem as bestas, recorrendo de tal prepotência para a Relação do Porto. E acrescentou a contradita seguinte sobre o mesmo familiar do santo ofício, a quem puseram a alcunha de “perna calaceira”:

— É homem de má consciência e se diz publicamente que andou publicamente induzindo testemunhas para jurarem contra ele, para efeito de lhe tomar culpa e o fazer prender; e que o mesmo é homem pobre, sem fazenda nem ofício e se sustenta do alheio, que pede e alcança por indústrias de que usa.

Impossível analisar o processo de António Pereira no curto espaço de um artigo de jornal. Diremos que ele foi preso em 21.11.1647 e saiu queimado na fogueira do auto-da-fé celebrado em 14.4.1652.

Nessa altura já a Rua dos Sapateiros estaria completamente despovoada da “gente da nação” a crer na informação que em 21 de fevereiro desse ano mandava para a inquisição de Coimbra o comissário Pedro Saraiva de Vasconcelos:

— Os cristãos-novos desta vila se fugiram todos para Castela e só ficaram 3 casas que também farão o mesmo, porém dizem que alguns estão escondidos em Vila Flor, que é a sua cidade de refúgio, com intenção de passarem a Castela.

 

Notas:

1 - Inq. Coimbra, pº 8786, de António Pereira.

2 - Quando o prenderam, tinha ele em uma tulha na aldeia de Tinhela 300 alqueires de centeio, de rendas recebidas, e deviam-lhe mais de 1096 alqueires assim distribuídos pelas terras de Monforte Rio Livre: na Aguieira, 180 alqueires; em Tinhela, 126; Oucidres, 130; Bobadela, 80; Vilar Seco, 44; Bouçoães, 116; Vilartão, 80; Tronco, 160; Águas Frias, 80; “no lugar de Monforte ainda lhe devem o que se costuma pagar”.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães