Joe Berardo

Personagem controversa, es ta. Apenas com 40 anos, emigrante regressado da Africa do Sul, carregado de dinheiro e obras de arte é de repente que se vê carregado de condecorações, comendas e outras formas de o agraciar já que dispensava os “vistos gold”, forma recorrente de trazer para cá o capitalismo Chinês. Este novo “cavaleiro da fnança”, este “George Soros” português, pôs a fnança nacional ao rubro e teve como corolário lógico a tentativa de controle do maior banco comercial português, o BCP. Essa tentativa de controle, também conhecida por “assalto ao BCP”, um chavão glosado pelas oposições a este Governo PS numa tentativa de fazer uma colagem deste Governo ou de alguns membros deste Governo a tudo que diabolizam no Governo Sócrates, é uma jogada da finança pura e dura e não é menos legítima que o “assalto da Sonae à PT”, só que esta não resultou. Ora, para concretizar o “assalto ao BCP era necessário que um grupo de accionistas, nos quais se incluía Joe Berardo, se tornasse maioritário pelo que era preciso comprar acções de forma a atingir esse “score”. Para isso os bancos, CGD, BCP, BES, disponibilizaram o crédito necessário para a compra das acções tomando estas como garantia do pagamento do débito contraído. Até aqui estava tudo bem. A correr normalmente, quer dizer-se não houvesse contratempos relevantes, as acções valorizavam-se, Joe Berardo ressarcia os bancos pelos débitos contraídos e ninguém ficava a saber nada excepto os intervenientes directos. Ganhava Berardo e ganhavam os bancos. Mas a coisa não correu como o esperado. Com a crise as acções caíram para mínimos incríveis e os especuladores não conseguem pagar as dívidas aos bancos. Surgem então uma série de acusações à gestão da CGD: favorecimento indevido, negligência na análise de risco e sobretudo o facto de ter aceitado como garantia de pagamento um bem que tem um valor demasiado fluido como acontece com as acções. Mas as acusações são à CGD. Os outros bancos não interessam porque só na CGD é que um erro técnico se pode transformar em acusação política. Mas mesmo aqueles que acusam os gestores da CGD de temeridade ou de favorecimento indevido têm que aceitar que é uma acusação puramente política. Digo isto pelo seguinte: aquando a 1.ª fase de privatização da EDP, na qual eu também fui subscritor, a CGD deu-me crédito para comprar 150 contos de acções da EDP em que a garantia eram as próprias acções e mais, se as acções desvalorizassem a CGD fcava-me com elas. Eu não tinha risco absolutamente nenhum. Resumindo: a CGD fez-me o que fez a Berardo. E não desdenhem do montante porque 150 contos vezes pai, mãe, flhos, avós, sopeira e isto vezes o número dos funcionários públicos dá possivelmente um montante superior ao que foi disponibilizado a Berardo. Mas correu bem. Não houve nenhuma crise e o Dr. Cavaco fcou ufano. E se tivesse havido crise?

Esta mesma prática bancária deu certo num caso e foi um desastre noutra. O único elemento que não é comum aos dois casos e que portanto se torna determinante é a crise. Mas a obstinação política da Comissão de Inquérito preferiu as suspeitas de corrupção, de favorecimento, de dolo eventual, em suma, não resistiu ao que de mais estridente tem a voz do populismo: “alguém tem de as pagar”. Aliás a Comissão de Inquérito fez-se com um objectivo claro e determinado: conseguir provar a liga- ção de Sócrates a este “dossier” com posterior condenação para em seguida imputar responsabilidades a todos os seus colaboradores sobretudo àqueles que têm hoje funções governativas. A tentativa tornou-se demasiado óbvia. Analisar, só, a CGD alegando ser um banco de dinheiros públicos não convence, uma vez que todos, TODOS, os bancos nacionais, à excepção dos que faliram, tiveram de ser recapitalizados com dinheiros públicos. As razões porque precisaram, TODOS, de recapitalização devia a Comissão de Inquérito apurar.

Um dos males do capitalismo é não prever as suas crises ou se as prevê não as revela porque se as revela, a crise que estava para ser, é já. Todos nos lembramos daquela intervenção memorável do Dr. Cavaco quando denunciou haver muito “gato por lebre” no mercado accionista. Foi uma “boutade” No dia seguinte só já havia “gato”. O capitalismo, se antevê a crise, aguenta estoicamente as angústias do médico de família – “… um dia tenho de lhe dizer…” – mas não diz, senão é o colapso. É assim que funciona o capitalismo selvagem e agressivo.

Transformar Joe Berardo no bode expiatório de todos os males que a crise veio a revelar não tem sentido. Ele é uma peça integrante do sistema capitalista que nos governa e interpreta magistralmente as regras desse jogo a que todos estamos sujeitos. A banca gosta deste tipo de “players” que se encarregam do excesso de liquidez dos bancos (quando há), que dão velocidade à massa monetária circulante, que geram a riqueza fctícia, aquela que de facto não existe. Mas que faz sonhar, faz.

Já a prestação de Joe Berardo na Comissão Parlamentar de Inquérito é inenarrável. A forma como parodiou os representantes do povo, mostra o apreço em que tem a sociedade em que vive. Já a postura física, deselegante, boçal, labrega causaram-me perplexidade. Um coleccionador de arte era, para mim, também um artista, essa pessoa sensível que trata tudo com muito esmero e delicadeza. E saiu-me aquilo! Decididamente, a arte, em Joe Berardo, é só um activo não fnanceiro. Por outro lado, a forma que deu ao discurso, arrogante, malcriada, desafadora não disfarçava o enfado que sentia por ter de responder. A tudo isto emprestava uma pose altiva, sobranceira de quem mira todos os outros de cima do cavalo.

Àqueles a quem ensinaram que só se olha um homem de cima se for para o ajudar a levantar-se, isso incomodou.
 

Manuel Vaz Pires