Em memória de Rogério Rodrigues

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Porventura, o “Maio de 68” representou a grande revolução cultural que o Ocidente viveu no século XX.

O Rogério e eu e muitos da minha geração fomos autenticamente “apanhados” nesse movimento.

Muitas vezes falámos sobre isso, o Rogério e eu e da intensidade com que a vivemos, cada um à sua maneira e em territórios diferentes. Marcuse, Chardin e Camus eram, no entanto, autores comuns, pelos quais fomos, ele e eu, muito marcados.

Ex-seminaristas, ele de Macau e eu de Bragança, um e outro nos dizíamos tocados pela leitura de livros como “La Messe sur le Monde”, então publicada pelo antropólogo jesuíta e de “O Lodo e as Estrelas” pelo padre Telmo Ferraz.

Juntou-nos a vida, em outubro de 1973 a dar aulas na escola da “nossa” vila de Torre de Moncorvo e logo de seguida abraçando a revolução do 25 de Abril, com entusiasmo igual e formas de estar diversas, naturalmente.

Da convivência com o Rogério, confesso que uma qualidade ressaltava, a meus olhos: a sua natural bondade. Nunca nele notei uma pontinha de ódio ou de inveja.

Da sua obra, de escritor, poeta, novelista e jornalista, não preciso falar, que está espalhada em múltiplas formas e suportes.

Mas há um tributo que eu devo pagar ao Rogério. Trata-se de um texto que ele escreveu e nunca foi publicado, pela simples razão de que andou perdido, o original e a cópia que me deu. Quisemos publicá-lo, ele e eu, em um livro coletivo sobre a aldeia do Larinho. Não o encontrámos. Depois apareceu a cópia, que guardei para nova oportunidade. Chegou a hora de pagar o tributo, publicando-o. Nenhuma ocasião seria mais própria do que esta.

O texto foi escrito e lido pelo seu autor, Rogério Rodrigues, no dia 30 de abril de 1995, no cemitério do Larinho, perante uma plateia de duas centenas de antigos alunos e professores do Colégio Campos Monteiro, idos em romagem à tumba do seu fundador e diretor, o Dr. Ramiro Salgado. Aí vai então este inédito de Rogério Rodrigues, pleno de atualidade, na ocasião em que ele próprio nos deixou.

 

UM INÉDITO

DE ROGÉRIO RODRIGUES

Cabe-nos recordar a vida, entre a memória da morte. Neste cemitério, na exiguidade do tempo.

Diriam os mais velhos, a tradição judaico-cristã, a nossa matriz cultural, com reminiscências bíblicas: “Pó és e em pó te hás-de converter”.

Hoje, recordar o dr. Ramiro é, acima de tudo, recordar o futuro. Passe o aparente paradoxo.

Façamos deste momento não um epitáfio, mas um hino ao futuro.

Porque ele hoje diria aos nossos filhos – e nós já branqueámos os cabelos nesta caminhada e já sofremos o suficiente – porque ele diria hoje aos nossos filhos: sonhai, acreditai que podeis fazer um mundo melhor.

Lembrar o dr. Ramiro é, acima de tudo, lembrar o futuro. Passe o paradoxo, insisto. Porque o dr. Ramiro viveu, sobretudo, o futuro.

Dele, em cada um de nós, ficou um gesto, um olhar, um esboço de ternura, um início de cólera, um sorriso ou um berro.

Porque nenhum de nós conseguiu ou consegue a descoberta da totalidade do Homem. Aqui estamos, cada um com o seu destino. Diferentes e diversos, mas com algo de profundo a unir-nos: o dr. Ramiro contribuiu, com uma pedrinha que fosse, para a construção do nosso destino.

Para nós, o dr. Ramiro será, porventura, memória. Seria bom que para os nossos filhos fosse futuro.

E quando digo futuro, falo de ideais e – porque não? – de utopia, falo de honra, de dignidade – e porque não? – de protesto.

Porque o dr. Ramiro diria hoje aos jovens a quem não pode ensinar, mas a cujos pais ensinou: “Não vos envergonheis de ser felizes. E sede irreverentes, loucos, agitados, sonhadores, mesmo que os vossos pais se preocupem. Mas que sejais sempre dignos”.

E os nossos filhos haviam de compreender. E por certo terão saudades, passe o paradoxo, insisto, e a imprecisão do conceito, terão saudades de não terem tido como professor o dr. Ramiro.

Os anos corroem a memória, distorcem as imagens e os factos, provocam a efabulação dos pequenos nadas. Tudo bem. Ninguém sai prejudicado.

Constroem-se mitos e andamos todos nós à procura de um paraíso que jamais há-de haver.

É a lei da vida: passamos metade do tempo a aprender a viver; e a outra metade a aprender a morrer.

Olhamo-nos. Criámos barriga, cabelos brancos, conformámo-nos ou revoltámo-nos, somos bem ou mal sucedidos na vida, conforme o conceito de sucesso e o conceito de vida, sonhámos e projectámos o sonho nos outros. Uns foram, porventura, felizes. Outros não.

Nesta diversidade humana, ideológica, social e económica que possa existir entre nós, algum nos une, neste momento, entre a efeméride e a nostalgia: o dr. Ramiro Salgado.

Ele foi a referência, o gesto bastante na hora da procura, quando éramos jovens e procurávamos um caminho sem saber que estávamos a procurar e sequer o que estávamos a procurar.

Mas ele sabia. E desafiou-nos com um hai-kai japonês da água do dique que transborda as margens.

Porque nós éramos a água de um dique que transborda as margens.

Ele compreendia, o dr. Ramiro, que os limites somos nós que os criamos e reflectimos. Ele compreendia também que a natureza humana é feita de fragilidades, mas que tem no interior, quando estimulada – e aí os professores são fundamentais – a força da solidariedade, o gesto irmão do encontro e da ajuda, a procura intensa, ainda que desordenada, da justiça.

Sejamos justos neste tempo crepuscular, dir-nos-ia ele.

Há que endurecer, mas sem perder a ternura, acrescentarei eu, glosando uma personalidade famosa deste século.

Ele viveu da juventude, com a juventude e para a juventude.

Se o dr. Ramiro nos pudesse revisitar, ultrapassar as leis do tempo e a corruptibilidade da carne, olhar-nos-ia, com os seus olhos grandes e palavras convictas: “Entregai-me os vossos filhos e eu torná-los-ei homens”.

E eu garanto-vos que lhe entregava os meus.

 

António J. Andrade