E porque não mudar o Infarmed para Boticas?

Qualquer observador minimamente atento, ainda que se limitasse ao acompanhamento do processo através dos órgãos da comunicação social, desde logo ficava com a sensação de que ninguém acreditava, talvez nem mesmo os seus proponentes, no sucesso da candidatura da cidade do Porto à importante Agência Europeia do Medicamento que, já se sabe, deixará Londres em consequência do Brexit e será reinstalada em Amesterdão, na Holanda.
Ainda assim, este insucesso da "antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade” não é dramático nem desonroso e muito menos deslustra o esforço empenhado do autarca Rui Moreira que ousou arrebatar a candidatura portuguesa à “mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa" que já foi cabeça de um secular império colonial mas que agora pouco mais é que a capital do fado e, que tem em António Costa, seu filho extremoso, um hábil executante de um penoso fadário.
Como é óbvio, o processo rendeu pingues proventos eleitorais a Rui Moreia e não tantos a António Costa, pese embora o enorme sucesso deste nas últimas eleições autárquicas. Quanto ao futuro logo se verá quem mais fica a lucrar.
Surpresa grande, isso sim, que deixou muito boa gente boquiaberta porque ninguém estava a contar com tão estapafúrdia notícia, foi o anúncio da transferência do Infarmed, entidade que em Portugal representa a Agência Europeia do Medicamento, de Lisboa para o Porto, que assim ganha importante prémio de consolação.
A seguir a um doloroso período de tragédias e comédias o Governo parece agora apostado em divertir os portugueses com um novo ciclo de embaraçantes anedotas e chistes, tal a leveza, populismo e amadorismo com que a “geringonça” governa o país, trate-se do Orçamento de Estado ou, como é o caso, de transferir um organismo público complexo e volumoso como o Infarmed, da sua localização actual para outra a mais de 300Km e sem que se vislumbre o menor interesse nacional na operação.
Que ninguém se afoite, porém, porque, no dizer do primeiro-ministro tudo se resume a uma questão de descentralização, sendo que descentralizar, para o insigne governante, significa apenas desconcentrar, isto é, reduzir o país a Lisboa e ao Porto, tornando Portugal bipolar, portanto.
Só que bipolar já Portugal o é há muito tempo dado que alterna entre estados depressivos e estados de excitação eufórica por obra dos seus inefáveis governantes.
Mas se a ideia for mesmo de descentralização então porque não mudar o Infarmed para Boticas que, além do mais, tem nome afim com o negócio dos remédios? E a sede do governo para Mirandela, por exemplo, cidade em que o PS acaba de alcançar uma vitória estrondosa, não menos sonante que a alcançada no Porto pelo independente Rui Moreira?
E, já agora, porque não há-de a presidência da República instalar-se no Castelo de Monforte que está devoluto, e já foi sede do heroico concelho de Monforte de Rio Livre, para lá de que possui melhores ares e águas que a capital do reino republicano que mantém a corte em Lisboa?
Ora, aqui está uma causa bem interessante e digna para os políticos transmontanos embandeirarem. Sobretudo os nossos mal-amados deputados que, quando no poder, se limitam a tecer loas ao governo e, se na oposição, só de vez em quando fazem umas perguntas de chacha aos ministros que, porque são pessoas educadas e politicamente correctas, sempre respondem, mal seria que o não fizessem, com palavras de circunstância que, para bom entendedor, equivalem a mandar os perguntadores abaixo de Braga.
Falando mais claro: à badamerda, com vossa licença, que é o que todos os governantes por norma fazem aos transmontanos e seus afins. Melhor seria que pura e simplesmente os ignorassem.

Henrique Pedro