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Academia Montsefarad IV Simpósio Sobre Judaismo

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A herança judaica é um património que, em outras eras, os Portugueses em geral e os governantes e dirigentes da igreja católica, em especial, se esforçavam por desvalorizar ou mesmo renegar. Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal, foi exceção e caso deveras exemplar, que devemos recordar. Infelizmente, só muito mais tarde esta “herança maldita” começou a ser considerada como um património valioso, do ponto de vista cultural.

Em Trás-os-Montes e creio que em Portugal, depois do 25 de Abril, Torre de Moncorvo foi uma das primeiras localidades a tomar consciência do valor deste património, promovendo uma jornada de estudos judaicos em 1976 e depois a entrega do diploma de cidadão honorário ao embaixador de Israel, abrindo-se um processo de geminação com uma localidade israelita, que ficou por concluir.

Seguiram-se anos de desinteresse, em Torre de Moncorvo e em todo o Trás-os-Montes. Ao contrário, municípios como Belmonte, Castelo de Vide, Trancoso e Tomar lançaram iniciativas concretas de reconhecimento e valorização da mesma herança, com forte investimento na captação do turismo judaico.

Em Trás-os-Montes, em termos de promoção de estudos, a iniciativa mais consistente terá sido a do jornal Terra Quente que, em Abril de 1999, iniciou a publicação de uma página que manteve durante mais de 15 anos, com o título de “Caminhos Nordestinos de Judeus e Marranos”, seguindo-se uma outra, semanal, durante mais de 3 anos, no Jornal Nordeste, com o título: “Nós, Trasmontanos, Sefarditas e Marranos”.

Experiência fantástica foi conduzida pelo povo da aldeia de Carção que, em 2008, se declarou a “Capital do Marranismo” e se lançou na criação de um Museu Marrano, exclusivamente dedicado à preservação da herança judaica da aldeia, enquanto a Câmara Municipal de Vimioso promovia umas Jornadas de Estudos Judaicos, com promessas de novas iniciativas.

Entretanto, em Chaves, no seio do Rotary Club, nasceu um Centro de Estudos Judaicos, promovendo Simpósios anuais. Bragança, por seu turno, assumiu a sua condição de Terra de Sefarad, com a promoção de dois Congressos Internacionais e a criação de um Centro de Estudos e um Museu da Memória Judaica. Em Torre de Moncorvo, desde há anos, ganhou espaço cultural o Encontro de Estudos Judaicos e a publicação de livros sobre a matéria. Em Vinhais, Miranda do Douro, Vila Flor e Alfândega da Fé assistiu-se também a um manifesto interesse com o desenvolvimento de algumas ações de estudo e promoção da herança Sefardita.

Em apoio a estas realizações esteve quase sempre a Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste, da Universidade de Lisboa cujo trabalho de estudo e divulgação merece particular realce.

Perdoem se esqueço outras iniciativas relevantes para Trás-os-Montes e perdoem também se cometi alguma involuntária incorreção neste breve historial ou nas observações que me proponho fazer. 

Trás-os-Montes é uma região da Sefarad onde a memória e o património judaico se apresentam bem visíveis e genuínos, tanto no que respeita à arqueologia e monumentos de arte, como em documentos escritos, entre eles milhares de processos da inquisição. Visível também na gastronomia e etnografia e quiçá, no património humano. Como escreveu Jorge Luís Borges, nas veias da generalidade dos Trasmontanos, correrá uma gota de sangue judeu.

No entanto, apesar das iniciativas atrás referidas e apesar da conhecida apetência dos “novos portugueses” (descendentes dos judeus do tempo da inquisição a quem foi ultimamente concedida a cidadania) em visitar, conhecer e estudar a terra dos seus antepassados, os resultados não são muito animadores. Na verdade, não se nota a existência de um regular movimento de turismo judaico em Trás-os-Montes, como acontece em outras regiões do País.

Culpa de quem? Dos outros? Não. A culpa só pode ser nossa, apenas nossa, dos Trasmontanos. Talvez tenhamos de refletir sobre o caminho seguido até aqui. Possivelmente o que falta é um “trabalho em rede”, coisa difícil de conseguir pois o individualismo é algo que está no nosso gene, é talvez a característica mais forte da “arte” de ser dos Trasmontanos.

É imperioso, no entanto, que tomemos consciência da nossa pequenez, interiorizar a noção de que, isolados, não vamos a parte nenhuma. Ninguém se desloca propositadamente a Carção para ver um museu, por mais interessante que seja. Poucos se deslocarão a Chaves em busca da antiga sinagoga, ou a Bragança para fazer uma consulta no Centro Interpretativo local. Menos irão a Torre de Moncorvo visitar a casa da Pelicana e percorrer a Rua do Prior do Crato e a avenida Jorge Luís Borges. O mesmo a Rebordelo ou Lebução ou Vilarinho dos Galegos…

Mas, se nós formos capazes de traçar uma Rota comum e desenvolver um projeto integrado de turismo judaico, então o produto torna-se apetecível e Trás-os-Montes ganhará espaço no reino da Sefarad. Uma Rota dos Judeus que, como uma filigrana estendida na paisagem de Trás-os-Montes, ligue o Porto a Vila Real, Chaves, Bragança, Vimioso, Mogadouro, Foz Côa, Vila Flor, Mirandela…

Por tudo isto, encarei com otimismo e muita esperança a criação, em Novembro passado, da Academia Montsefarad – uma associação que se apresenta com o objetivo declarado de estudo da história e do património judaico e sefardita em Trás-os-Montes e de promoção de eventos de natureza cultural e turística que interessem à região.

Antes de mais, quero dar os parabéns aos promotores da iniciativa, ligados ao Centro de Estudos Judaicos do Rotary Club de Chaves, muito em particular ao Senhor Doutor José Alves Ferreira.

Mais sentidos parabéns e um forte abraço aos que, não estando ligados ao CEJACV, aderiram desde a primeira hora e estiveram na fundação da Academia Montsefarad.

Mais forte e sentido o apelo que aqui deixo a todos os Trasmontanos que se interessam pela história do nosso passado comum judaico para que solicitem a sua inscrição como sócios da Academia e colaborem ativamente nas suas atividades. Todos somos poucos para o trabalho de mobilização de vontades que urge fazer. Um apelo também aos dirigentes autárquicos no sentido de apoiar, acarinhar e contar com a Academia Montsefarad, em futuras iniciativas.

E agora quero agradecer ao Jornal Nordeste o espaço que me cede para divulgar publicamente o primeiro evento que a Academia vai organizar – IV SIMPÓSIO SOBRE JUDAÍSMO – nos dias 13 e 14 de Março de 2020.

Não se estranhe que Chaves, Rebordelo e Lebução sejam o palco escolhido para este Simpósio, já que aquela cidade foi o berço onde nasceu a Academia e estas aldeias estão umbilicalmente ligadas.

Estranharei, sim, se, desde logo, não aparecerem autarquias e/ou grupos de sócios da Academia a apresentar candidaturas para organizar eventos futuros, nomeadamente o Simpósio do próximo ano que, penso, poderá alargar-se no tempo e ter lugar em dois ou mais municípios, de Lamego a Miranda do Douro, de S. João da Pesqueira a Bragança, de Torre de Moncorvo a Vinhais…

Não podemos esperar que outros venham a Trás-os-Montes promover a cultura e o turismo judaico. Temos que ser nós a estudar a nossa história. Temos que ser nós a promover os nossos valores, neles incluindo o património sefardita. Temos de ser nós a construir em cada localidade a Rota dos Judeus, com base em sérios estudos científicos e não em “contos e ditos”.

Permitam uma pergunta indiscreta: — Conhecem algum município em Trás-os-Montes que tenha uma Rota definida e um guia preparado para conduzir um grupo de turistas judeus?

Sim, temos de ser nós a formar em cada terra guias de turismo. E temos de ser nós a promover a apresentação de produtos historicamente relacionados com a gastronomia judai­ca e marrana, conscientes de que os homens e mulheres que trabalham na restauração e na hotelaria são os melhores agentes de promoção e venda da cultura e do turismo judaico, uma fileira de turismo com largo futuro. Assim sejamos capazes de o promover.

 

António J. Andrade