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Tributo a Uma Mulher Virtuosa

Ter, 13/11/2007 - 10:47


Iniciado a partir do memorável acto solene – vulgo, tomada de posse – realizado no dia 3 de Março de 1970, eis que chegou ao fim, no pretérito mês de Setembro, o vínculo laboral que ligava o Estado português à pessoa que eu considero ter sido a mais profissional e competente Servidora do Reino, anónima cidadã vinhaense (por afinidade, devido a ter contraído matrimónio com um dos ícones da capital do fumeiro), de nome Helena Ferreira, de quem tive o grato privilégio de ser colega.

Mas - poderá pensar quem disponibiliza algum do seu precioso tempo a este escrevinhar -, o que terá esta senhora de tão extraordinário para justificar uma crónica laudatória? Quer eu, que com ela lidei, durante os inesquecíveis anos em que trabalhei na Zona Agrária de Vinhais, quer os demais colegas que com ela privaram do lado de dentro e do lado de fora do balcão, quer os milhares de agricultores vinhaenses, somos capazes de perceber que, além de perfeitamente merecida, o discurso evocativo ficará sempre aquém da seu profissionalismo e da sua dimensão humana, por muito rebuscadas que sejam as palavras para a enaltecer.
Se há, além dos amigos (sempre suspeitos), quem possa testemunhar acerca das singulares virtudes desta senhora, capazes da colocar num patamar de veneração, numa veneração não fanática, mas racional e lúcida, à altura de preencher, em rigor, os requisitos da expressão latina “Prima inter pares”, é, sem quaisquer reservas, e não correndo o risco da generalização, a totalidade dos agricultores do vasto concelho de Vinhais; dos quais, sem possuir qualquer procuração para me legitimar como tal, tenho a ousadia de me assumir como porta – voz dum sentimento que publicamente lhes é impossível manifestar.
Falar da Dona Helena é referirmo-nos a quem personifica, em todos os sentidos, a Excelência. Atrás do balcão, ela, como mais ninguém o fazia, dominava proficientemente todas as matérias: eram as Cotas Leiteiras, eram as Indemnizações Compensatórias, era o Prémio dos Ovinos e Caprinos, eram os assuntos relacionados com a caça e com a pesca, eram as Agro – Ambientais, eram informações diversas, minuciosas e pacientemente explicadas aos interessados. Enfim, um sem – número de tarefas executadas exemplarmente, num dinamismo e perfeição próprios de quem estava confortavelmente documentada.
Associa-se a toda esta invulgar prestação, e que consolida todo o carácter de virtuosismo da pessoa, responsável, naturalmente, pelo granjear de respeito e admiração que todos nós lhe devotamos, as inegáveis qualidades morais, manifestadas enquanto servidora da coisa pública: sempre com um sorriso nos lábios, tão natural quanto quem o esboçava, pessoa agradável, de trato fino, graciosa e altruísta, a Dona Helena não se limitava apenas a servir o povo naquilo que seria sua obrigação, enquanto funcionária do Ministério da Agricultura. Não, o vulgo vil profano, ou seja, os agricultores menos avisados, procuravam-na, nos serviços, em casa e no café, para verem esclarecidos assuntos, expressos em cartas e ofícios cujos remetentes eram, por exemplo, a EDP, os Correios, a Telecom, os Seguros e a Segurança Social.
Para a Dona Helena, ao longo deste indiscreto e imaculado percurso profissional de 37 anos, o respeito e a fidelidade para com os seus clientes eram valores inestimáveis. Talhada para grandes voos, devido às suas enormes capacidades, a minha digníssima homenageada, em favor da causa que, intrinsecamente, elegeu como sua, sempre se conseguiu esquivar aos constantes aliciamentos (para muitos seriam irrecusáveis) dos partidos políticos locais. Pois, os que conseguissem tentá-la, por ser a mais popular das personagens vinhaenses, seriam generosamente premiados nas urnas de voto. E tanto assim é, que esta senhora, se um dia se candidatasse às eleições autárquicas, como cabeça – de – lista, independentemente do partido que representasse, ganhava, com toda a certeza, com maioria absoluta, sem precisar de fazer campanha eleitoral.
Mas, porventura, a mais fiel das provas (que foram inúmeras) de que a Dona Helena fazia do exercício laboral do dia – a – dia a sua missão, é-nos dada a partir do episódio que me apraz registar: devido ao intenso e abundante trabalho diário naquela repartição pública, a Dona Helena, que tocava, como se costuma dizer, todos os instrumentos até ao limite das suas forças, ela que era sempre a última a vergar, deu entrada, um certo dia, no Centro de Saúde local, por ter desfalecido em consequência do cansaço acumulado. Observada pelo médico, este, depois da paciente ter recuperado os sentidos e as forças, recomendou-lhe uns dias de repouso. Impedida, pelo marido, de retomar o trabalho naquele mesmo dia, o que era sua vontade, porque, segundo a própria, tinha deixado pessoas por atender, no dia seguinte, antes das 9 horas, contrariando as indicações do médico, lá estava ela, para mais um dia de luta, naquela que considerava ser a sua segunda casa.
Foi, naturalmente, esta dedicação incondicional ao trabalho e a sua postura irrepreensível que justificam a consagrada expressão (milhentas vezes ouvida), e da qual sou testemunha, “ Essa senhora é uma santa”, quando a ela se referem.
Da minha parte, Dona Helena, que por si tenho um enorme carinho e uma admiração incomensurável, pela sua disponibilidade, pelos seus ensinamentos enriquecedores, pela forma tão digna e distinta de estar e servir os outros, permita-me brindá-la com uma saudação muito especial, e desejar-lhe dias venturosos para a nova etapa da sua vida - as mais do que merecidas “férias prolongadas”.