Ter, 10/07/2007 - 10:57
Quero advertir o leitor mis distraído de que me refiro a quatro elementos decorativos que já por ali estão – julgo – há cerca de cinco anos. Pelo que não terão certamente passado desapercebidos a qualquer munícipe que tenha circulado pelas imediações do mais bonito jardim de Bragança. Que é um espaço quase intocado pelo tempo e pelas acções modernizadoras dos homens, com os seus bancos de madeira pintada, o pavimento empedrado, o chafariz sem efeitos especiais, os recantos de histórias vividas, o coreto retocado de memórias. No aconchego das árvores que filtram os raios de sol espalhados sob as ramagens.
Com os seus modernos espelhos pespegados às árvores antigas, o Jardim António José de Almeida lembra-me uma tentativa de decalque, à moda de Hollywood, dos grandes filmes europeus que os realizadores americanos reformulam à sua maneira, para deixarem a sua marca no cimento húmido da glória de fácil acesso.
Foi assim que um ícone da Nova Vaga francesa, como “O Acossado”, de Godard, com J.P. Belmondo, inspirou uma história feita de histeria e corrupio, lá para Hollywood, com o lamecha nome de “A Força do Amor”. Foi assim com o sublime “Asas do Desejo”, de Wim Wenders, que foi invejosamente imitado por um regimentado realizador do sistema americano que fez um êxito chocho chamado “A Cidade dos Anjos”, com um parzinho de vedetas choninhas. Foi assim com o clássico “Blow Up – História de um Fotógrafo”, de Antonioni, que terá estado na origem de uma coisa sebenta chamada “Blow Out”, protagonizado por um John Travolta cansado de dar voltas.
Ora, o Jardim António José de Almeida deve ser preservado naquilo em que assenta a sua autenticidade e, consequentemente, a sua matriz original. Longe da monotonia da onda granítica; longe da estilizada linha de montagem dos Polis deste país; longe do design tão arrebatador quanto disfuncional de bancos sem encosto e candeeiros de luz fosca; longe, sobretudo, da alçada de uma perspectiva redutora que considere ser necessário marcar um território com uma assinatura estonteante.
Toldados pelo pó e baços da sombra que os cobre, os quatro espelhos do Jardim neutralizam a essência reflectora que os deveria constituir. Virados uns para os outros, reforçam o carácter narcísico que subjaz à sua presença naquele espaço. Reflectem-se apenas a si próprios quando não a alguma infeliz mosca que ali se tenha esborrachado, entontecida pela ilusão de algum brilho difuso.
Sem abrangência, sem profundidade, sem enquadramento capaz de lhe dar qualquer sentido estético ou funcional, os quatro tristes espelhos servirão apenas a vaidade pontual de um ou outro passeante que ali se mire o tempo suficiente para perceber que em casa estava com melhor aspecto.
Talvez na modernizada e atractivada zona do Polis, o brilho dos espelhos se tornasse real, já que aí o sol se arrama, exponenciando o efeito da luz. Além disso, poderiam reflectir o nosso velho Fervença. O que faria duplicar a imagem do rio, criando a ilusão de um caudal mais anafado.
O significado dos espelhos do Jardim António José de Almeida nunca foi dado a conhecer. E é pena, porque o efeito de sugestão sempre é meio reconforto para quem procura a causa das coisas...
Nota breve: Ainda não tive oportunidade de visitar o novíssimo Centro de Ciência Viva, instalado nas margens do Fervença. Conto fazê-lo brevemente e dar, aqui, conta disso.



