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O 10 de Junho

Ter, 19/06/2007 - 11:26


Os olhares inocentes e tristes dos mais novos, acompanhavam os olhares dolorosos dos mais velhos devido à chegada do 10 de Junho, dia da Pátria, da Raça e de Camões assim o informava o jornal da Mocidade, pois o feriado das medalhas concedidas aos mortos na guerra colonial significava o fim das aulas para todos quantos não tinham exames. Significava o esvaziamento da cidade, o fim da frequência dos cafés e coçar as costas nas esquinas, o princípio do trabalho duro nas aldeias, pois os pais não se compadeciam pelo puxar dos cordelinhos da inquietação dos meninos e das meninas ganharem calos nas mãos, mais a mais, se tinham reprovado.

A dor de deixar a cidade, a dor de abandonar a namorada, a dor de vaguear pelas ruas e jardins, a dor de largar os amigos de conversas desgarradas pela noite fora, eram muitas dores juntas a ultrapassarem em setas de aguda melancolia as setas cravadas no peito da Senhora das Dores que percorria as ruas e caminhos nas festas de verão. Os da cidade, alguns, viam partir no comboio ou na camioneta da carreira a namorada, as férias iam ser grandes, enormes, naqueles três, quase quatro meses o que ela faria, os primos lá da terra, as romarias, as idas ao rio, tudo, ainda a rapariga lhe esvoaçava a mão num adeus repenicado e já ele se encolhia devido à dor de raivosa ciumeira, ele bem sabia porquê. As férias eram tempo de rupturas, de receber-se uma carta seca, ou não se receber carta nenhuma denunciadoras do despedimento, conduzindo a um doloroso despeito disfarçado à noite no decorrer da verbena ali no tablado do Jardim, quantas vezes rasgado violentamente pela amiga que ficou e recebeu uma carta a comunicar o fim da ligação amorosa, traduzida em olhares ternurentos, afagos e pudicos beijos. O choque a originar um massacre de gargalhadas dos circunstantes, logo embrulhado em conselhos dos mais experientes enquanto o desconsolado não soltava balidos de cordeiro por vergonha. Após os exames a cidade ainda ficava mais nua, até parecia que nem os cães ladravam tanto, os chumbos provocavam pragas contra os professores: de química, de física, de matemática, de português –, principalmente, as reprovações atingiam em maior número os rapazes, como era da praxe. As rupturas davam-se por outras razões. Uns meses antes dele morrer, encontrei o Manuel Remondes na FIL, estava eu numa comezaina com o Virgílio Gomes, o Alberto Fernandes e salvo erro o Malhó produtor de televisão. O Remondes acenou-me, fui receber um abraço, trocámos os galhardetes da ordem, falámos de namoradas e nesse ponto atirei: “pois é, a tua grande paixão mal chegou a Coimbra mandou-te apanhar malvas, ela que era tão misseira, os dois tão JEC e tu tanto fazer músculo à mistura.” O Manel fez um trejeito de cabeça, respondeu: “tivesse eu acabado o sétimo!” Nas minhas deambulações e viagens se encontro gente dos idos de sessenta, logo a memória, sempre sem aviso prévio, trata de escancarar o rolo contendo as imagens que retive da convivência, simples resmungos de bom dia ou boa tarde, amizades e despeitos, vindo ao de cima a falência dos afectos que a acometeu após a sua saída da cidade. Involuntariamente faço uma selecção das imagens, tento perceber os solavancos dos outros, pois aos meus há muito tempo procedi ao seu desmancho, raspei-os e coloquei-os no sítio que lhes compete. Vejo determinada rapariga transformada num caco velho, percorro a esbelteza de outrora, vejo determinado rapaz feito um desconjuntado andaime de ossos salientes e de dentadura obscena, é melhor não tentar o meu espelho, ou fazer como o enorme poeta Herberto, nada de fotografias, nem imagens. É o melhor. Realmente o 10 de Junho não passa de um data marcada pelo tempo. “Perdoem-me as deidades, mas tu, diva…” Dizia o outro poeta.

PS. Nem todos rasgaram ou romperam os primeiros amores, como são exemplo a Julieta e o “Chico Cepeda”. Um abraço.