Ter, 21/08/2007 - 14:49
As Musas, ou Mousai, deusas das artes e da ciência, filhas de Zeus e Mnemósina, tinham por função inspirar poetas, músicos, filósofos e artistas. O mouseion ou musaeum fazia parte da constelação de locais onde imperava o respeito, a reflexão, a contemplação, pois era um templo das Musas. No decorrer dos séculos o termo Museu passou por diversos entendimentos, mas no essencial, foi sempre considerado como local onde os poderosos mostravam peças e obras de todos os géneros nas quais se reflectiam as suas posições e visões estéticas, artísticas, culturais ou pura e simplesmente de ostentação. Uma coisa é certa: os museus multiplicaram-se, reformularam-se e sem eles os povos, todos os povos seriam muito mais pobres. Sendo assim e é, a constituição de um Museu destinado a preservar, defender e divulgar o património seja ele de que natureza for, a revigorar a identidade cultural das Comunidades e a contribuir para o seu desenvolvimento em múltiplas valências incluindo a económica, reforçando e conseguindo um novo sentido de auto-estima a nível local e orgulho a nível nacional, não pode ser cousa de fanfarra, recolha de peças sem o conveniente estudo técnico, colocá-las a eito sem nenhuma espécie de enquadramento no primeiro poiso disponível e entregar a chave a uma qualquer pessoa, certamente estimável, mas carente de formação de modo a cumprir cabalmente a sua função. Nas minhas andanças pelo País, tenho encontrado inúmeros museus de faz-de-conta, ufanos na exibição de uma placa, normalmente fechados quando deviam estar abertos, sem pessoal qualificado, sem projecto e escorados no umbiguismo do seu quase proprietário. Os museus podem e devem ser pontos focais da recuperação cultural do Nordeste, mas por favor não abastardem o conceito pois a acontecer os prejuízos não se confinam a esta localidade ou àquela cidade, infelizmente, propagam-se como chamas em giestal seco contribuindo para o afastamento de todos os públicos de museus bem estruturados, a funcionarem como “casa das riquezas” assim é denominado o novo museu e centro cultural da Thursday Island, no arquipélago do Estreito de Torres, na Austrália. Temos muitas riquezas ao abandono, é verdade, urge recuperá-las – claro que sim, importa polvilhar o território nordestino de locais de interesse de modo a seduzir, obrigar o termo é este, os públicos a lá permanecerem pelos menos três dias nem se duvida, por isso mesmo deve existir o necessário discernimento para pensar e planear tão importantes instrumentos de cultura. Não vou abordar o tema “museus do mundo para o mundo”, muito menos as novas formas de musealização, mas à luz dos pressupostos da qualidade, da competência e do conhecimento não deixem os engenhocas, os jeitosos e amadores tomarem conta daquilo que deve ser confiado a quem sabe. Certamente, o decisor político ou outro qualquer quando lhe dói um dente vai ao barbeiro para lho arrancar, prefere ir ao dentista a fim de salvar o incisivo. Outrora o barbeiro arrancava tudo, às vezes até o osso, ainda vemos vestígios numa ou noutra boca de gente idosa, em relação às estruturas culturais também temos de as tirar do alcance dos barbeiros e sangradores. Ou não?



