Ter, 25/09/2007 - 10:47
Fazer o pão não era tarefa fácil. Depois do cereal segado e malhado à força de braços dos homens da terra era preciso levá-lo ao moinho para ser amassado e transformado em farinha pelos moleiros que não tinham noites e só depois é que se podia fazer o pão: o alimento por excelência. Onde houvesse pão, não havia fome.
Quando a lida o permitia e a necessidade assim o impunha, a mulher – porque cozer o pão e peneirar foi sempre trabalho seu – preparava a farinha. De manhã muito cedo, à tarde ou à noite, lá ia ela com a farinha para a masseira e punha-se a peneirar. O fermento não era o que hoje se usa e era preciso prepará-lo de véspera ou guardá-lo de uma cozedura para a outra e de vizinha para vizinha. O amassar do pão é uma ciência a que nem todas as mulheres se ajustavam: “Hoje el diablo tentou-me site vezes; por esso le pan num me quedou buno” – diz-se em Sendim”. (retirado de: O cozer do pão – Dr. Belarmino Afonso).
Depois de amassado ficava a levedar coberto por um alvo lençol de linho – o lençol do pão – e mantas e cobertores, não sem que a mulher dissesse algumas orações tradicionais e fizesse algumas cruzes por cima da massa. A crendice popular ainda hoje se faz sentir nas nossas aldeias, quando, muito esporadicamente, se acende o forno a lenha e se faz pão. Aquecer o forno exige uma técnica muito especializada não vá o pão ficar cru ou queimado. Quando o forno está quente começasse a fingir e vai-se controlando a temperatura do forno, colocando mais lenha, até que a massa esteja toda fingida. Meter o pão no forno não é tarefa fácil, requer técnica e sabedoria; pode ser a diferença entre meter a fornada toda ou deixar alguns pães de fora. A saída do pão do forno é o culminar deste trabalho nada fácil.
Quem tinha pão na mesa era rico. O salário dos criados era pago em azeite e pão cozido para além das parcas moedas que constituíam o seu rendimento.
Hoje vivemos outros tempos e o pão já chega às nossas mesas com abundância e com uma enorme variedade de sabores. Já não se faz, com raras excepções, de forma tradicional. É feito em fábricas de pão, as padarias. É amassado mecanicamente e cozido em fornos eléctricos. As segadas são feitas com ceifeiras e improvisam-se malhas em feiras de artesanato para que as pessoas saibam como se fazia antigamente. A mão-de-obra necessária para estas tarefas diminuiu vertiginosamente. As modernas máquinas substituem o homem em todas as tarefas. Os velhos e típicos moinhos são restaurados para servirem de pontos turísticos. Nas aldeias vai-se “ao carro” buscar o pão. Os fornos estão ao abandono. Raramente se coze e quando se faz é uma festa e um consolo para a alma.
E como o tempo não volta mas é necessário preservar as nossas memórias, sugiro que se crie em Bragança, um Museu do Pão. O local de implantação do dito museu deverá ser definido pela autarquia. No entanto, atrevo-me a sugerir a actual moagem do Loreto, Moagem Afonso e Lopes, Lda., por tudo o que ela representa para a região e porque me parece que o espaço é suficiente para a fábrica da farinha e para o museu. Já em tempos escrevi um pequeno texto de homenagem ao Sr. “Toneco da Moagem”, grande empreendedor e também inventor premiado.
Claro está que a moagem é património privado, mas a realização de um projecto desta envergadura só dignificará o espaço e trará mais visitantes à cidade e à região. O facto de a moagem estar a laborar é uma mais valia para todos, no entanto, a sua centralidade dificulta, por vezes a circulação, devido aos grandes camiões que ali param para deixar ou levar mercadoria. Sugiro que se faça uma zona de cargas e descargas por trás da moagem, na zona que dá para o Fervença.
A exemplo do que se vê pelo país e pelo estrangeiro, o museu seria um espaço vivo e vivido, com a feitura do pão à maneira tradicional, com a exposição de todos os utensílios agrícolas e específicos da confecção do pão (Se, infelizmente, não houver ofertas graciosas dos diversos utensílios, deve-se proceder à realização de fotografias e pinturas de qualidade para que nada falhe.), assim como uma ou mais lojas de venda do pão cozido artesanalmente, em todas as suas variedades: pão trigo, pão centeio, pão de mistura, bolas de azeite, bolas de carne, bolas calcadas, chamuscadas, folar, roscas, etc.
Os cantares tradicionais das segadas e das malhas devem ser aproveitados e divulgados através de encenações ao vivo das várias lidas, assim como as rezas e crendices populares relacionadas com o pão. O moinho de água é tradicional na região e o rio Fervença estava bem fornecido deles. O Museu do Pão seria aberto ao espaço do Polis e far-se-iam visitas guiadas ao que ali se encontra restaurado… enfim, é necessário tirar partido das muitas potencialidades de que dispomos. O bom pão de Trás-os-Montes é capaz de atrair muita gente.
Francisco Cepeda



