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A Ministra, o Professor, o seu Aluno e o Pai dele

Ter, 13/11/2007 - 10:58


Foi em 1990. O cineasta britânico Peter Greenway assinava a realização e o argumento de um filme que se tornaria de culto. Uma obra visualmente deslumbrante, onde várias artes se sobrepõem e complementam (com música de Michael Nyman), por entre um enredo surpreendente e macabro. Era “O cozinheiro, o ladrão, a sua mulher e o amante dela”.

A acção decorre entre a cozinha e a sala de um restaurante cujo dono é um homem sem escrúpulos que engana os clientes, sevicia a mulher e tortura e mata os que crê que o enganam. O desfecho, pouco aconselhável a estômagos sensíveis, é o corolário vingador de uma sequência de actos perpetrados impunemente. E é justamente a cena final (horrível, caro leitor, por isso prepare-se, porque eu vou mesmo referi-la) que me leva à reflexão sobre o verdadeiro assunto deste texto. Tendo mandado matar (com requintes) o amante da sua mulher, o dono do restaurante vê-se coagido, por ela, a comer parte do corpo desse mesmo homem, sob ameaça de morte. E, sim, sim, come. E a seguir é morto.
Desculpe, caro leitor, mas eu desvendei o final por duas razões: se não viu este filme, é uma pessoa sensível e, por isso, já não teria intenção de o ver; e eu precisava de apresentar uma situação que explanasse a ideia de que acabamos por ser vítimas das situações nas quais fazemos dos outros vítimas.
E a propósito de questões responsabilizantes, é este o momento de referir um assunto incontornável quando se olha para a evolução da educação em Portugal nas últimas décadas. Através da forma como a democracia reagiu ao obscurantismo de um regime ditatorial de mais de quarenta anos, marcado por vergonhosas taxas de analfabetismo e escolaridade baixíssima. A injustiça social em que se baseava, então, o ensino público e que o 25 de Abril – muito justamente – quis abolir, acabou por criar uma forma de complexo, relativamente ao acesso à educação. E a discriminação patente no antigo regime redundou num inacreditável amplexo de facilitismo, após a entrada na democracia, pretendendo-se compensar os alunos das “privações” e do “autoritarismo” de que os seus pais e avós tinham sido vítimas. Assim se abria o caminho para o declínio da autoridade do professor, frequentemente reduzido ao papel de primeiro entre iguais, numa escola assente num sistema de “afectos” e de “local lúdico”onde se veicularia a esfusiante “expansão da livre criatividade do aluno”, em detrimento do conhecimento e da noção de estudo e de trabalho. Perante o olhar incrédulo dos pais que dificilmente acompanhavam a mudança sistemática de terminologia e de métodos a que os seus filhos eram sujeitos.
O professor passou a ser encarado frequentemente como um “actor”, caracterizado por um espírito imbuído de metodologias pedagógicas e didácticas, que valorizavam muito mais as formas de ensino do que os conteúdos que seria suposto ensinar.
Os próprios alunos – a par dos professores – tornaram-se cobaias de experiências, projectos, revisões e reformas educativas que se foram espiralando, numa vertigem quase destrutiva, ao ritmo dos diversos governos da nossa democracia. Como se a procura do “sistema ideal” implicasse a destruição das medidas já implementadas, sem uma perspectiva de longo prazo, antes criando projectos e propostas de carácter perpetuamente remediante, sem capacidade de avaliar efeitos. Por isso, os anos trouxeram poucos resultados positivos.
A Escola torna-se vulnerável se se transformar no instrumento de qualquer política social que tenha como objectivo fundamental a inclusão social através do grau académico. Por isso, tantos alunos consideram que estudar faz pouco ou nenhum sentido, já que o importante, mesmo, “é passar”. Sem esforço, sem trabalho.
Trinta e três anos depois do 25 de Abril, parece que chegámos mesmo à idade em que Cristo foi crucificado no Monte Gólgota.
E espanta que, após mais de três décadas, o Ministério da Educação não consiga perceber que qualquer medida política que desresponsabilize os alunos desfavorecê-los-á a muito curto prazo. Porque a noção de que não precisam de trabalhar nem de ser assíduos às aulas vai provocar neles uma diminuição progressiva do esforço, do trabalho, do sentido do dever e da responsabilidade enquanto cidadãos livres e conscientes.
E mais espantoso é que a Ministra da Educação assuma princípios tão diferentes para os alunos e para os professores. Destes exige rigor, trabalho permanente e uma avaliação impiedosa. Aos alunos, seres em construção, parece estar destinada uma plataforma de facilitismo, paternalismo e irresponsabilização.
Desvalorizar o trabalho e o sentido de responsabilidade dos alunos é não perceber ou não querer ver que o mundo real não progride sem esforço, sem empenho, sem aprendizagem efectiva. Que indivíduos estão a ser criados? Com que futuro? Como se tomarão eles próprios a sério, se o sistema de ensino os olha de forma condescendente?
Também eu tenho um estômago sensível, afinal. Hoje não vou jantar.