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Laribau & Buiça

Ter, 17/07/2007 - 10:47


Há um alqueire de anos, estava amesendado no Restaurante Machado-Cura, com mesa, cama e roupa lavada. A comida era excelente, cada refeição era constituída por: sopa, primeiro prato, segundo prato e sobremesa. As doses eram francas e fortes, o vinho de estalo.

A Amélinha cuidava de mim, propiciando-me desvelos maternais que jamais esquecerei. A gratidão não é palavra vã, na expressividade dos sentimentos e valores que defendo. Os comensais trocavam entre si palavras, piadas e comentários a propósito de tudo e de nada, pelo mau trato fazia-se notar um escrivão natural de Rebordelo, o homem utilizava uma linguagem movediça, intimidatória – os escrivães podiam usar pistola – só sendo colocado no seu lugar por um advogado rechonchudo, afável, sempre pronto a deitar uma pitada de esperança nos meus desesperos provindos de uma larga e longa, e áspera vivência. Chamava-se Domingos da Ponte, era de Vinhais, tinha escritório debaixo do quarto onde eu jogava a lerpa, dançava e dormia. Além de possuir uma raro sentido de humor, destacava-se pelo desapego no falar claro em relação ao salazarismo, que ao tempo poucos tinham a coragem de fazer. Um dia, trouxe para a mesa um jovem penteado à romana, vivo, expedito e capaz de discorrer sobre uma série de temas de índole cultural. Assim conheci Jorge Lima Barreto. Passado pouco tempo cada qual foi à procura do mundo no Mundo, dele ouvi falar por se distinguir em várias áreas do conhecimento no domínio das artes musicais. As suas tomadas de posição, o seu empenhamento no desenvolvimento de novas formas de abordar a criação musical e o seu empenhamento em causas cívicas fizeram dele uma figura conhecida e respeitada nesses meios. Mas, porque eu tinha fundeado na leitura pública, no estudo e investigação no referente à cultura e civilização em terrenos tão díspares como a gastronomia e os centros lúdicos, os parques temáticos e outras cousas no género nunca mais nos vimos, até há bem pouco tempo. Dado estar a coordenar um projecto na esfera da música, lembrei-me de o contactar. Não foi fácil, após diversas diligências chegámos à fala e acabámos a almoçar no “Pedro Quinto” do qual é sócio o conhecido Sr. Juvenal que debutou no desaparecido café-restaurante Cruzeiro de Bragança. A conversa distribuiu-se por Vinhais, tinha de ser, abordámos algumas figuras silentes, estacionou na Bragança das empregadas dos correios vestidas com bata preta de cetim, a mulher do Sr. Abel Monteiro também a usava, nos bonzos enfarpelados, nos empalhados da burocracia e terminou no comentário aos actuais protagonistas políticos e intelectuais. Voltámos a almoçar um dia destes e Jorge Lima Barreto, trouxe-me um presente – um disco cujo título é: Laribau e Buiça. O Laribau era meu parente, o Buiça também. O primeiro transformou-se numa figura típica, engana todos quantos o julgavam um rematado tolo, o segundo entra numa canção, é uma figura histórica negativa por ter participado no regicídio. O primeiro batia feiras, festas e procissões, por motivo das suas ideias republicanas o segundo conseguiu ser expulso do Regimento de Lanceiros da Rainha, acabando em professor e compadre de Aquilino Ribeiro. Sobre o primeiro já escrevi um artigo, sobre o segundo quero arranjar tempo para escrever uma biografia dele, pois tenho informações e relatos bem interessantes sobre as suas errâncias em Lisboa. Mas, voltando ao disco, o Jorge que é cosmopolita – de escangalhar em riso o episódio ocorrido no Brasil, entre ele e o revolucionário Padre Freitas da Moimenta, e que eu conheço de outras paragens –, em Nova Iorque mostrou e ofereceu o disco a essa grande figura do jazz chamada Ornette Coleman. O grande Coleman, o do saxofone de plástico branco, considerado genial por Leonard Bernstein, logo acertou na pronúncia de LA-RI-BAU. O senhor do “free jazz” ficou a saber quem eram estes dois “maus rapazes”, um vindo da Ervedosa, outro filho do Abade de Vinhais. Obrigado Jorge pelo disco, pela conversa e por me recordar o génio do jazz, o que me levou a quando cheguei a casa ir ouvir as suas improvisações e o lendário “Lonely Woman.”