Lagareiros da região associam-se para criar extractora de bagaço

Ter, 05/11/2019 - 12:30


Os lagareiros transmontanos tentaram convocar uma reunião com as empresas de extracção de bagaço de azeite, após estas anunciarem que vão deixar de pagar o bagaço e o seu transporte e penalizarem ainda os donos dos lagares, em 10 euros por cada tonelada, se for extraído o caroço da azeitona.

Na região existem apenas três extractoras, duas no concelho de Mirandela, o que lhes dá mais capacidade de decisão face aos 120 lagareiros de Trás-os-Montes. A intransigência por parte das empresas de extracção de bagaço não permitiu que fosse possível chegar a um consenso. “As extractoras sabem que os lagares têm uma capacidade limitada de armazenagem de bagaços e, portanto, dependemos deles”, começou por dizer Jorge Pires, da Pró-lagar em Mirandela, que acrescentou que as extractoras sugeriram a alternativa de passar os custos para o agricultor. Para Jorge Pires é uma decisão impensável, uma vez que os agricultores “não têm rentabilidade que lhes permita suportar mais custos”. Por isso, os lagareiros reuniram-se em Mirandela, com alguns autarcas da região, para discutir e procurar soluções para o problema. A curto prazo a solução passa por depositar o bagaço em “aterros sanitários”, ainda que também tenham alguma limitação. Mas os lagareiros vão mais longe e apontam que a melhor solução, ainda que demore alguns anos, é “montar uma extractora da qual os lagares seriam sócios”. “Tem um problema de investimento, pois é um investimento elevado, e o problema das autorizações. É um projecto que demoraria, no mínimo, quatro a cinco anos”, confessou Jorge Pires. Alexandre Pires, de Lagoa, Macedo de Cavaleiros, referiu que se estas medidas continuarem a ser impostas pelas extractoras, na campanha do próximo ano possivelmente não abrirá o lagar. Até aqui, produzia cerca de 700 toneladas de azeite, mas, este ano, diz que é “impensável trabalhar” assim e, por isso, vai apenas laborar a própria azeitona e a dos vizinhos, o que corresponde a 200 toneladas, aproximadamente. “Entre não ganhar, prefiro não perder”, afirmou. Já o lagareiro Manuel Massa, de Torre de Moncorvo, contou que apesar do problema, tem a possibilidade de transportar e depositar o seu bagaço num lagar que tem em Freixo de Espada à Cinta. “Não dá para estar a abdicar do repasse do caroço, mais o custo. Isso representaria no mínimo um prejuízo de 42,5 euros, o que a multiplicar por mil toneladas seriam 42 500 euros”, disse. De entre os autarcas, Júlia Rodrigues marcou presença com o intuito de apoiar um sector que gera milhões de euros na região. “Isto é um problema sério e grave, ainda por cima, porque foi colocado já no início de época” salientou acrescentando ainda que as extractoras têm que adoptar um “mecanismo sério” de extracção.

Bagaço: um subproduto

Os lagareiros manifestaram também a sua opinião sobre o bagaço ser visto como um resíduo, pois acreditam que é um produto “orgânico” que pode ser usado por inteiro. “Um produto que tem aproveitamento total, desde o óleo, caroço, a própria polpa usada em aviários, não pode ser considerado um resíduo”, sublinhou Alexandre Pires. Por isso, esteve também em debate na reunião, o que pode ser feito para que toda a fileira do bagaço seja aproveitada.

Jornalista: 
Ângela Pais