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Desabafos

Ter, 04/09/2007 - 11:48


Fui criado com princípios morais comuns. Quando era pequeno, as mães, os pais, os professores, avós, tios e os vizinhos, eram autoridades dignas de respeIto e consideração. Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afecto. Impensável responder de forma mal educada aos mais velhos, aos professores ou autoridades. Confiávamos nos adultos porque todos eram pais, mães ou familiares das crianças da nossa rua, do nosso bairro ou da nossa cidade. Tínhamos medo apenas do escuro, dos sapos e dos filmes de terror. Tínhamos respeito por tudo o resto. Hoje deu-me uma tristeza infinita por tudo aquilo que perdemos. Por tudo aquilo que os nossos netos um dia enfrentarão! Pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e dos adultos.

Perante tudo o que enfrentamos hoje, pelas coisas que temos e não deveríamos ter, pelas imposições que nos abrangem sem sermos consultados, pelas obrigações e deveres contraditórios, pela incompetênia, pelo desnorte de todos quantos concordam com esta incoerência de sociedade, por tudo isto, fiquei triste, muito triste. Já não temos confiança em ninguém! Já não acreditamos em ninguém. Desconfiamos de toda a gente, porque toda a gente desconfia de nós. Tudo está trocado.
Temos direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para os cidadãos honestos. Amnistia para corruptos e ladrões!
Que aconteceu connosco? Que sociedade temos?
Professores maltratados nas salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades nas portas e janelas...
Que valores são estes?
Automóveis que valem mais que abraços. Filhas querendo uma cirurgia plástica como presente de passagem de ano. Telemóveis nas mochilas das crianças. Modernismos!
O que se vai querer em troca de um abraço? Será que alguém sabe o que é um abraço? Abraços... vendem-se.
Quando é que tudo desapareceu ou se tornou ridículo?
Como é que vamos mudar tudo isto? Quando vamos pôr as coisas no seu lugar? Onde pára a dignidade da pessoa humana?
Eu gostaria de poder arrancar as grades da minha janela e sentar-me na varanda e dormir com a porta aberta nas noites de Verão! Alguém se lembra de quando isso era possível?
Eu queria a honestidade como motivo de orgulho, a rectidão de carácter e o olhar olhos nos olhos. Eu queria a vergonha na cara, queria a solidariedade, a esperança, a alegria, a confiança!
Em vez de aplaudirmos o Ter, deveríamos elogiar o SER.
Quem nos dera novamente o retorno da verdadeira vida, simples como a chuva, limpa como o céu de Primavera, leve como a brisa da manhã. Definitivamente bela como cada amanhecer. Como Torga tinha razão!
Como gostaria de ter de volta o meu mundo simples e comum! Lá existiam o amor, a solidariedade, a paternidade com valores fulcrais. A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito.
Será que podemos voltar a ser gente? Construir um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas?
Não, não é utopia! Pensem um pouco. Será que vale a pena tentar?!
Os nossos filhos merecem, os nossos netos certamente nos agradecerão.
Amanhã começa mais um ano lectivo. Antigamente era uma alegria voltar à escola. Hoje é um suplício. Após todas as medidas tomadas por este Ministério da Educação, como é que se pode ansiar por um novo ano lectivo? Por mais que se gostem dos alunos, por maios que se adore a profissão, estaremos sempre com desconfiança perante os colegas, para com os alunos, os pais e até com os órgãos de gestão. A justiça já não impera. A dignidade do professor foi posta na sargeta. Os alunos foram ignorados. O ser professor, que era considerado como um sacerdócio, hoje é motivo de chacota e desemprego.
Parece que todos nos esquecemos que os governantes de ontem, de hoje e de amanhã, passam pela escola, que os juizes e advogados aprenderam na escola a ser justos e rectos, que os médicos aprenderam a salvar as pessoas e a ter a sua deontologia própria e que os professores se prepararam para ensinar todos eles a serem dignos transmissores dessa aprendizagem. Todos se esqueceram. Que pena!
Como eu gostaria de acreditar num mundo melhor! Alguma coisa está a falhar. Se já nada mais se consegue ter ou fazer, pelo menos que se comece por respeitar a pessoa humana, para que com a dignidade que merece, ela construir, de raiz, a sociedade que gostaríamos de ter para os nossos filhos.