Ter, 02/10/2007 - 10:50
Ao invés, o Sr. Manuelzinho embora não sendo burro, nem parvo, passava os dias a contar as moscas por ele liquidadas com a ajuda de vassouro de giesta e não consta terem diminuído no espaço onde ele roía as horas na finitude da vida. Os leitores já perceberam eu ter estabelecido uma diferença entre burros e asnos, apesar de os dicionários não se atreverem a semelhante atitude. No decurso deste ano percorri terras africanas marcadas pela presença de escanzelados burros de carga. Sim dos de quatro pés. Não evoco este facto pela pretensão – que seria de asno – de me exibir como viajante – faço-o porque ao vê-los logo estabeleci a diferença de viver destes burros em relação aos seus irmãos portugueses, pimpões a exibirem-se em Azinhoso e Naso, olhando orgulhosamente a querer dizer: também tivemos o nosso “25 de Abril”, além de ser verdade, ainda bem. Em matéria de evocações de burros dotados, inteligentes, competentes nunca me esqueço do transmontano Sultão e do espanhol Platero. Um e o outro merecem ser evocados e ensinados nas Escolas, não estou a brincar, “nuestros hermanos” não o esquecem o sagaz Platero, dando-se ao luxo de o inserirem nos seus programas culturais, ou não fosse ele Prémio Nobel. Não vou a Mogadouro há três anos, desconheço se o poder político galgou a escada da imaginação e considerou o Sultão como mais valia turística, no entanto, sobre o modo de o fazer nada mais digo porque quem quer ideias tem de as comprar, mas o ladino merecia uma estátua, lá isso merecia. Em Bragança – os burros estão representados numa rotunda, os asnos não precisam, nem o justificam, antes pelo contrário, dada continuarem a proliferar somos obrigados a cometer façanhas heróicas a fim de nos livramos das suas asnices. Nas feiras de antanho consternava-me ver a triste sorte dos burros ao serem negociados por asnos violentos descendentes dos negreiros compradores e vendedores de escravos, de quando em vez, um burro menos disposto a suportar tão negra barbárie mordia resolutamente o cobarde agressor. Os asnos ao contrário dos burros mordem a mão daqueles que lhes fizeram bem, daí a prevenção em relação às dentadas dessa gentalha. Nessas feiras existia uma clara diferença de classes no sentido marxista do termo, de um lado os burros e burras, depois as bestas médias – machos e mulas, a seguir as bestas maiores inchadas de vaidade – os cavalos e as éguas rabudas a vigiarem os garranos. A tipificação dos negociantes pode ser estabelecida em: asnos, cavalgaduras, onzenários, vigaristas, gente honesta e conhecedora, ingénuos e tolos. A melhoria de condições de vida dos burros é fruto das tremendas alterações verificadas na estrutura das sociedades ocidentais, ao contrário – os cavalos sempre usufruíram de vida airada, excepto quanto trotavam em direcção à guerra, porque no referente ao entretenimento e fruição do ócio sempre foram e são vedetas. Mas, aos irmãos de Bucéfalo não vou dedicar mais atenção, importa sublinhar um facto mostrado pela televisão – uma gincana de burros. Nesse jogo de habilidades que não vi em pormenor, os burros, certamente, revelaram-se engenhosos de modo a não decepcionarem o público, apesar de preferirem retouçar nos dois sentidos com as burras ou mulas desprevenidas, desamparadas ou desdenhadas pelos machos. O espaço não permite o continuado desenvolvimento do tema, aconselho aos leitores a leitura dos clássicos, entre eles o “Asno de Ouro”.



