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O Empurrão Para o Abismo

Ter, 16/10/2007 - 11:26


Segundo dados estatísticos disponibilizados, recentemente, por um canal televisivo que, de momento, não sei precisar, os cinco maiores bancos que operam em Portugal arrecadaram, no primeiro semestre de 2006, a fabulosa quantia de 5,3 mil milhões de euros de lucros; contra, segundo a mesma fonte, 2.000 milhões de Crédito Mal Parado; somas que, como diria o meu estimado amigo Orlando Guedes, “deve ser muito dinheiro!”

Ainda que seja inevitável a convivência com uma sociedade cujas leis se regem segundo parâmetros “estabelecidos” pelas Economias de Mercado, como é o caso da nossa, a verdade é que os donos da banca, relativamente à obtenção desses estrondosos encaixes financeiros, não podem ser acusados, aparentemente, de o conseguirem à margem da lei. No entanto, do ponto de vista da moral cristã, esta gente não está incólume.
Da minha visão simplista e pouco académica sobre a matéria em questão, direi que a explicação para este tipo de ambivalência social, num modelo de que fazem parte, num contexto de crise económica demasiado prolongada, por um lado, uma minoria que prospera galopantemente, e, por outro, aquela massa imensa de famílias que se encontra na tão aflitiva quanto dramática situação de endividamento, está, de um modo geral, relacionada com factores de ordem económica, política, social e cultural.
A queda do Muro de Berlim, a Perestroika e outros acontecimentos que a história se encarregará de registar, mais do que um derrubar de barreiras físicas e ideológicas entre os povos, tiveram a consequência directa de nos dar uma nova visão acerca do mundo; e, por arrastamento, permitiu que milhões de cidadãos do espaço europeu, com especial incidência no caso português, tivessem acesso a uma vida condigna, a que se vinculam realidades (outrora utópicas) como, entre outras, a aquisição de casa própria, por sinal, um dos mais elementares direitos dos cidadãos, consignado na nossa Constituição.
Como é sabido, só a partir dos finais dos anos 90, com a liberalização dos mercados financeiros, foi possível ao português comum materializar justificadas veleidades que até há bem pouco tempo eram impensáveis, porque negadas, devido à falta do vil metal.
Não sei se é um traço exclusivo da raça lusa, mas a verdade é que nós, portugueses, somos pouco dados a meios termos, quer na forma como gerimos as emoções, quer na forma como exibimos a materialidade, ou a ausência dela. E é precisamente nesta falta de equilíbrio, na pouca lucidez para se perceber que existe uma cor intermédia entre o preto e o branco, e que entre o 8 e o 80 ainda há uma considerável sequência numérica, que está, de um modo geral, muito do segredo das receitas astronómicas da banca e, numa lógica de desnivelamento social, do drama das famílias endividadas.
Ora, o português, por via da sua natural propensão para a megalomania, associada ao elemento atractivo do “fácil acesso ao crédito”, tornou-se presa fácil para os homens da banca. Depois do carro e da casa - bens indiscutivelmente utilitários e imprescindíveis -, veio a motoquatro, o plasma, as férias para lá do Atântico e outras superfluidades. Por consequência, este mundo de vanidades e ilusões leva a que os mentalmente mais fracos, os que não têm auto – domínio, não consigam perceber que o serviço que lhes é prestado pelas instituições de crédito não é, nem pouco mais ou menos, empréstimo de dinheiro, mas, outra coisa bem diferente, a venda do mesmo.
Tanto quanto me tenho apercebido, dada a concorrência entre as instituições bancárias, hoje qualquer pessoa contrai um empréstimo bancário com a maior das facilidades, sem que para isso seja preciso apresentar quaisquer garantias de que o mesmo vai ser pago. Não esquecendo também a forma como se banalizou o uso do cartão de crédito, esse objecto mágico que permite ao seu utilizador comprar este mundo e o outro. Depois, claro, surgem os dramas decorrentes destas situações.
Assim, para que este fenómeno tão quotidiano, responsável pelo desmembramento de tantas famílias e pelo aniquilar de tantos sonhos, fosse combatido, seria necessário que os nossos políticos o considerassem na agenda das suas preocupações mais prementes; o que, a acontecer, constituía um passo decisivo para se criarem mecanismos legais que impedissem que os mais incautos fossem vítimas de jogos de pressão e de aliciamentos eticamente desaconselháveis – verdadeiros empurrões para o abismo.
Por conseguinte, para que os consumidores dos produtos bancários, nomeadamente aqueles que são atraídos por impulsos incompatíveis com a sua situação financeira, não caíssem na tentação de dar uma “cabeçada na vida”, de dar um passo irreversível, devia haver uma lei que impedisse os bancos de conceder empréstimos a todos aqueles que manifestam condições financeiras pouco “recomendáveis”, à imagem do que acontece, por exemplo, nos cafés e nos restaurantes, onde a lei não permite se venda álcool a quem, segundo o Decreto 9/2002, de 24 de Janeiro, que a valida.., “ se apresentar embriagado ou com anomalia psíquica”
Até lá, e enquanto este problema não atingir uma dimensão tão ampla que seja capaz de suscitar a consciência colectiva, os números com que se pintam estes dados estatísticos – avolumados pelo constante agravamento das taxas de juro - podem ser, num próximo balanço, bem mais cinzentos do que se possa pensar.