Ter, 09/10/2007 - 11:09
Hoje, o que vai sair daqui é um olhar de espanto sobre duas questões, que podem ser três e que facilmente se reduzem a uma só, tão velha quanto o homem e a sua descoberta de qualquer tipo de poder exercível sobre os mais fracos.
Das reacções dos vários líderes partidários sobre a eleição de Luís Filipe Meneses, a que me pareceu mais lúcida foi a do secretário-geral do PCP que fez saber que o grande problema do PSD não era tanto a identidade do novo líder, mas o facto de o seu espaço politico ter sido ocupado pelo PS. É óbvio, não é? À maneira do ministro dos Negócios Estrangeiros, por exemplo, entre muitos outros óbvios exemplos possíveis, obviamente.
E se refiro Luís Amado, é para tomar a parte pelo todo. Cada ministro é, mais do que uma peça do sistema, uma réplica, em micro-sistema, de toda a estrutura governativa. A célebre explicação do ministro dos Negócios Estrangeiros para justificar a recusa do Governo em receber o Dalai Lama é tão clara, no seu sentido, como uma redacção de menino do terceiro ano, elogiando as virtudes da Primavera. “As razões são óbvias”. A única diferença é que as razões pelas quais o menino gosta da Primavera são confessáveis e publicáveis (e talvez por isso ninguém se interesse grandemente por elas).
Ouvi, há dias, – a propósito desta subserviência do Governo português ao poder económico amarelo – que a China dos camaradas foi substituída pela China dos comerciantes. Assim, o que pensar, agora, de um governo democrático que em tempos foi pioneiro, junto da ONU, na dinamização de um movimento de condenação da República Popular da China contra a violação dos Direitos Humanos?
Quando o valor das estratégias financeiras se levanta, mais baixo descem os valores dos princípios que enformam a dignidade humana. À semelhança do que aconteceu com a Indonésia em Timor-leste, também o Tibete foi invadido pela China, e perdeu a sua autodeterminação, a sua liberdade religiosa e a sua identidade cultural.
Mas a atitude atarantada do governo português, face ao medo da reacção da China não é incoerente. É antes a consequência de uma agenda constituída por prioridades bem definidas, com secções rigorosamente estanques. Veja-se: o governo do país que detém a presidência da União Europeia recusa-se a receber o Dalai Lama, representante político e religioso – no exílio – de um povo subjugado por um regime totalitário com o qual o tal governo alimenta grandes esperanças de suculentas trocas comerciais. Tudo muito óbvio, portanto, na perspectiva desse governo e dos seus representantes.
E porque as coisas estão ligadas, eu deveria, agora, referir aquela questão que se tornará cada vez mais actual até Dezembro. A da cimeira União Europeia/África, onde brilhará o cada vez mais mediático ditador do Zimbabué, Robert Mugabe (que, recordemos, foi impedido, em 2004, por decisão do Conselho da Europa, de pisar solo europeu). Responsável por uma gravíssima crise humanitária, consequência de um regime sinistro e economicamente enlouquecido.
Mas porque isto anda tudo ligado, lembrei-me de um filme espantoso que vi há uns meses: “O Último Rei da Escócia”. O argumento é baseado nas memórias de Nicolas Garrigan, médico pessoal de Idi Amin Dada, ditador do Uganda ao longo de quase toda a década de 70. O jovem escocês recém-licenciado em medicina, decide partir para o Uganda para fugir à vida previsível do pai. Quando aí chega, Idi Amin acaba de tomar o poder e o encontro dos dois é ocasional. Fascinado pela cultura europeia, Amin “adopta” Nicolas como seu conselheiro, delegando nele a própria saúde e a da sua família (três mulheres e uma catrefa de filhos). Fascinado com o mundo novo que se lhe abre, Nicolas começa por acreditar nos planos de Amin para o “futuro do Uganda”. Mas vai percebendo, aos poucos e à sua custa, o reino de horror que Idi Amin recria diariamente. O próprio Nicolas, inadvertidamente, se torna responsável pela morte de um homem: o ministro da saúde que vê a falar com um sul-africano e cuja atitude lhe parece suspeita. Desejoso de agradar a Amin, em quem ainda acredita, Nicolas relata-lhe o que viu. E o ministro da saúde nunca mais será visto.
A partir daí, toda a existência de Nicolas se transforma, sentindo-se acossado perante a sua própria consciência e o terror que vai crescendo em si. E este é um dos aspectos mais fascinantes do filme: a forma como Nicolas gere o seu medo, que escorre por ele e o transforma. Na cena quase final, em que Amin o manda matar lenta e dolorosamente, Nicolas atinge um clímax de coragem. Ensanguentado e tão vulnerável que já nada parece poder fazer-lhe mal, enfrenta o ditador e diz-lhe: “Você age como uma criança. É isso que assusta em si”.



