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Pastora sem descanso

Ter, 09/10/2007 - 11:09


Já conhece aqueles montes, vales e fragas de cor e salteado. Faça chuva ou sol, seja Natal ou Páscoa, Alice Borges sai todos os dias de casa para guardar cerca de 130 cabras de raça Serrana, que fazem da irrequietação e desobediência a sua imagem de marca.

Sempre acompanhada da merenda (pão, alguma carne e água) e de um guarda-chuva, quando chove, a pastora garante que não há um único dia do ano em que não saia por terras de Gebelim e aldeias vizinhas, no concelho de Alfândega da Fé. “Apesar de não ter horas certas para saírem, pois depende da quantidade de trabalho que se tenha cá fora, saem todos os dias. É por isso que nunca podemos viajar para outros sítios, longe da aldeia”, lamenta a pastora.
Com 51 anos e mais de 20 a guardar animais caprinos, Alice Borges recorda, com alguma nostalgia, as primeiras vezes que saiu para o monte. “Comecei a andar com as cabras mal me casei, que foi quando comprámos as primeiras”, recorda.
Em solteira chegou a acompanhar o gado da família. Por isso, quando teve que guardar as cabras, não estranhou. “Andava bem contente e, mesmo quando ia sozinha, nunca tive medo”, garantiu a cabreira.
Os filhos, Paulo e Marta Borges, actualmente emigrados na Andorra, foram, em tempos, o grande auxílio de Alice Borges, pois cuidavam da cabrada e conheciam cada animal. “Os meus filhos ajudavam a guardá-las, sabiam quantas tínhamos e davam-lhes nomes”, recorda. Apelidos como Rosinha, Libelinha, Fusqueta, Riscada ou Esmoucada servem para identificar as cabras e são atribuídos conforme as características de cada uma. “O modo como têm os cornos, o pêlo ou, às vezes, depende do que nos lembramos”, explica a pastora.

Rendimentos resultam dos parcos subsídios e da venda de cabritos e leite

Não há obstáculo e terreno que as cabras, com toda a agitação que as caracteriza, não consigam ultrapassar, pelo que a presença de um pastor não tem como objectivo guiá-las, mas vigiá-las. “No monte, elas é que decidem para onde vão. Nós só as acompanhamos”, salienta Alice Borges. Por isso, o trabalho de um cabreiro é importante, sobretudo, na hora de cuidar da cabrada e retirar o leite que vai ser vendido ou transformado em queijos.
Todos os dias, a pastora sobe à curriça para ordenhar as cabras. “Temos que fazer isto sem excepção, mesmo que armazenemos pouco leite nesse dia”, sublinha a pastora.
Os rendimentos familiares, resultantes destes animais, provêm da venda do leite a uma cooperativa, e dos cabritos, bem como de subsídios que recebem. “Tudo junto vai dando para comermos”, avança a cabreira.
Contudo, nas horas em que não tem que fazer queijos, mungir as cabras, levá-las pelos montes ou limpar a curriça, Alice Borges deita mãos à obra e cuida das terras agrícolas, onde cultiva alguns vegetais e hortaliças que ajudam no sustento da família.
“Nunca tenho tempo para estar parada. De casa para a curriça, de lá para a horta ou a cuidar dos outros animais. É uma vida muito dura, com trabalho árduo, mas não deixa de ser uma vida feliz e alegre”, garante a pastora.