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Homenagens

Ter, 18/09/2007 - 11:39


Eu tenho uma verdadeira paixão pelo sentimento da gratidão, ficando em fúria quando sou vítima do riso e mordedura de quem ajudei ou propiciei alguma felicidade. A fúria já deu azo a situações tremendas, uma delas violenta, porque não é admissível esquecermos todos quantos nos ajudaram, fizeram bem ou nos dedicaram palavras de conforto num qualquer aziago momento das nossas vidas. Tento combater a chaga lembrando pessoas, reavivando episódios, destacando actos a merecerem reconhecida referência. Daí, há meses nas páginas deste jornal alvitrei homenagens a conceituadas figuras, entre elas ao ilustre vinhaense Professor Barahona Fernandes, o qual ainda conheci.

Pelo Nordeste, soube ter a Câmara de Vinhais aprovado um acto gratulatório ao ilustre Homem de ciência, mas tendo em conta o conteúdo da notícia, estamos ante um reconhecimento curto e redondo. E, ele bem merecia uma referência bem mais comprida e larga, dado através do seu percurso, cometimentos e obra podermos realizar uma série de actividades capazes de contribuírem para a aculturação dos mais novos e defesa de diversos patrimónios por parte dos mais velhos. Não me alongo em explicações porque estas coisas exigem estudo, análise e reflexão, estando em contradição com o “ensacar e pôr ao fumeiro”, além de não ser inteligente enunciar ideias e conceitos, muito menos dar conselhos a quem não os solicitou. Esse peditório já recebeu demasiados contributos da minha autoria, no entanto, não me coíbo de agitar a memória de todos quantos a têm e mesmo daqueles que não a possuem – podem ser levados a tentar –, de modo a poder agradecer todo o bem e valores por mim recebidos de gente dos mais variados quilates, proveniências e matizes. Porque as gentes do território vinhaense são matricialidade no travejamento dos meus afectos, gostava de num cêntrico local da Vila ver, contemplar, observar, olhar e rememorar um mural onde todos quantos fizeram e fazem parte do nosso imaginário infantil, das aventuras da adolescência, das vivências variadas de mulheres e homens lá estivessem representados. Os medos e encantamentos prodigalizados nas histórias contadas nas noites invernais e representadas pela “bruxa” de tal lado e todas as restantes bruxas a merecerem uma agulha sem linha na pia da água benta, pelo Padre a implorar para lhe descalçarem a bota em pleno Monte da Forca, os pobres de pedir encarnados no mendicante de Vilar Seco, o cego mau tocador e a mulher gritadora do último crime hediondo a vender os versos a descrevê-lo, os aventureiros do trelo, os cabaneiros divertidos apesar de terem como companheira a mais sórdida das misérias, o carteiro palmilhador de quilómetros e testemunha de choros, ralhos e alegrias, o taberneiro especialista em zurrapa feita com água da Coutada passando por vinho de Valpaços, os vendedores de sardinha cujo animal de carga eram eles próprios, os exibidores de chagas purulentas em festas e feiras, as mulheres da vida airada e desvairada, o barbeiro-sangrador e tira-dentes, o capador causador de tremendos receios aos rapazinhos, desde sempre apavorados pelo homem do saco, e outros, e outros como os lavradores e lavadeiras que não cabem no espaço desta crónica. Na cidade de Bragança encontramos elementos esculturais a salientarem gente humilde e sofredora, sem esquecer animais de estimação e até de gáudio caso dos burros, na freguesia de Aveleda um painel de azulejos gracilmente alude à “burra tamén”, em Miranda os Pauliteiros transformaram-se num ícone da grandeza da Sé e marca de referência. Agora, um mural representativo do povo em toda a sua expressão, especialmente o mais marginal, relapso a cumprir normativos e obrigações, catita na sua sorna muito bem estruturada em sufocos de ignorância, sujidade e uma difusa invocação religiosa naquele “Pai-Nosso” abruptamente sustido mal a esmola é concedida, julgo não existir no Nordeste. Mestres de murais há muitos, Almada Negreiros deixou-nos um impressionante e admirável na doca de Alcântara, o estalinista e coadjuvante no assassinato de Trotsky, o Diego da Frida e outras mulheres como a espampanante Maria Félix, pintou muitos mais. Refiro estes dois a fim de melhor ilustrar o anteriormente dito. De qualquer forma, por mim continuarei a demonstrar o meu reconhecimento a essas e outras gentes escrevendo textos como este, pelo simples motivo de lhe estar grato pelos ensinamentos dados debaixo das suas ousadas, sacrificadas e estranhas formas de vida.

PS. Em termos individuais, o Dr. Domingos Salier Cepeda bem merece uma homenagem.