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M.M.B.

Ter, 11/09/2007 - 10:29


Caro leitor, já teve oportunidade de ver a forma eficaz como um prepotente bulldozer é capaz de arrasar um arranjadinho canteiro de flores?

Quem tenha vindo de um hipermercado – onde se abasteceu lautamente – e entre no Mercado Municipal de Bragança, perceberá o que quero dizer. Ao corrupio imparável da grande superfície contrapõe-se, no Mercado, a movimentação de alguns curiosos que vão olhando a disposição aprimorada dos produtos nos expositores das bancas.
Há horas, há momentos, porém, em que o afluxo é visivelmente maior, sobretudo quando os utentes do supermercado adjacente se afoitam nas entradas e saídas, em passadas rápidas e distraídas. E a relação entre o visitante passeador e o comprador real não atinge o equilíbrio necessário à manutenção da situação que o Mercado requer.
É que este espaço comercial, já quase com oito anos de existência – muito mais do que o refugo de outros serviços que servem de pretexto para uma deslocação àquele edifício – deveria tornar-se uma oportunidade de adquirir velhos hábitos já perdidos. Que passam pela aquisição de produtos cuja origem nos é mais próxima; pelo contacto com os lojistas que criam uma situação de maior autenticidade com os clientes; pela circunstância de se favorecerem produtos relacionados com a região; pelo facto de não nos serem lançadas as armadilhas típicas das grandes superfícies, como a “criação de necessidades”: irmos comprar leite e trazermos um coruscante descascador de abacaxis.
Plasmado num local inesperado para espaço comercial deste tipo, que se deveria situar numa zona central e habitacional (veja-se, por exemplo, o excelente Mercado de Zamora, situado no coração palpitante da cidade), o Mercado Municipal de Bragança nasceu meio torto, como uma coisa híbrida: localizado numa zona propícia a uma grande superfície, mas com um rol de produtos muito limitados para além das ofertas regionais.
Mas esta situação desenvolveu-se numa conjuntura, já com alguns anos, que remonta à degradação progressiva do antigo mercado, na Praça Camões, que – por acaso ou não – coincidiu com o desabrochar explosivo das quatro grandes superfícies da cidade de Bragança. Facto que fez arregalar, de profundo contentamento, os olhos dos brigantinos, orgulhosos do novo cosmopolitismo que se abria no seu horizonte até então demasiadamente semeado de giestas e carqueja. E os mesmos brigantinos foram ganhando rapidamente, e consolidando mais depressa ainda, hábitos de um comodismo beatífico de fim-de-semana à tarde. Em versão de fato de treino para quem só faz ginástica empurrando o carrinho a anafar de produtos vindos da Mongólia, da Martinica e das Maldivas. Dispensáveis, acessórios, afins e indispensáveis no seu exotismo de fazer sonhar. Porque o grande “feito” das grandes superfícies foi o de nos fazer crer que não somos ninguém se não precisarmos daquilo tudo. Perto da vista, perto do desejo. E siga! Que atrás já vem outro e a funcionária da caixa já nos espera com o seu impessoal “boa tarde”, sem nos olhar nos olhos.
Num mercado tudo é diferente. Os vendedores manifestam sinais exteriores de uma simpatia mais atenta. E o ritmo que subjaz a este tipo de espaço é condizente com a maior disponibilidade de tempo que se tem numa cidade com as características de Bragança.
Onze horas da manhã de sábado. O segundo andar do Mercado Municipal de Bragança ainda não despertou. O piso inferior – o das bancas de produtos alimentares e regionais – regista um movimento que resulta sobretudo da confraternização dos próprios vendedores com os seus vizinhos. Uma lojista vai polindo, com vagares perfeccionistas, os frascos de conserva colocados sobre o balcão. Minutos depois, a mesma lojista vai dispondo, com esmero, os mesmos polidos frascos, numa ordem rigorosamente simétrica, deslocando-os dois milímetros. Esta circunstância, representativa de uma imagem de “tempos de paz”, tem um significado muito claro.
Mudos e quedos, como raparigas tímidas num baile de aldeia de antigamente, estão os carrinhos de compras, pacientemente à espera de que alguém sinta a necessidade de se lembrar deles. O facto da gestão ter disponibilizado esses carrinhos atesta uma atitude optimista, mas a indiferença que os some mostra que o público que frequenta o Mercado não encara este espaço como um local onde enche o saco. E é pena.
Porque o Mercado Municipal de Bragança deveria ver a sua existência provada e justificada, com as condições fundamentais para a sua manutenção e para o seu crescimento enquanto organismo que é suposto servir os interesses do concelho. É que se não houver um esforço por parte da entidade gestora (e parece-me que ele deverá ser proporcional ao imenso investimento feito), o Mercado Municipal corre o sério risco de aperfeiçoar uma imagem de mercado-museu. Bonitinho, arranjadinho, intocável. E inútil, enquanto espaço comercial.