class="html not-front not-logged-in one-sidebar sidebar-second page-node page-node- page-node-166860 node-type-noticia">

            

Artesão ao encontro da Natureza

Ter, 04/09/2007 - 10:57


Todos os dias, Paulo Pereira passa horas em casa, na sua pequena oficina a trabalhar objectos que encontra, numa busca incessante, nas matas e florestas da zona de Bragança. As noites no “atelier” ganham forma em obras rocambolescas e surrealistas, mas muito simples no seu processo. Nos seus trabalhos, tudo é feito à mão, com a ajuda de uma pequena serra, uma grosa e outras ferramentas de pequena dimensão.

outras ferramentas de pequena dimensão.
Ainda assim, vai esperando que os seus clientes, com quem tem uma relação afectiva de amizade, entrem pela porta com “mais um pedido especial”.
Aos 38 anos de idade, Paulo Pereira revela que só descobriu este dom há cerca de 2 anos, quando, por mera “carolice”, decidiu ornamentar um tronco encontrado no meio da natureza nordestina.
O artesão, nascido em Angola, mas residente em Bragança há 34 anos, socorre-se de videiras, cepas, raízes de várias árvores e, sobretudo, de sobreiros para dar forma aos seus trabalhos. Passa horas à procura da forma ideal para dar cor aos seus trabalhos na mais genuína paisagem transmontana. Um corpus em estado bruto e selvagem, que é domesticado pelas mãos de Paulo Pereira, um operário da construção civil que não pode dedicar-se a tempo inteiro ao que melhor sabe fazer. As peças são de tipo variado, umas mais funcionais e outras com um valor meramente estético. No entanto, o artesão assina que até o belo deve ser útil. Talvez por isso, facilmente reconhecemos mesas, com flores em madeira e sementes de abóbora, cestos e toda uma gama de objectos que figuram diariamente nas nossas casas, sem, no entanto, perder a sublimidade artística. Tudo isto faz parte do seu “repertório”.
“Todas as obras nascem no momento e dependem muito da inspiração. Não sou daqueles que projecta minuciosamente a obra final. Tudo sai naturalmente quando olho para as raízes, cepas ou troncos encontrados”, explica o artesão.

Artesão soma já trezentos trabalhos e várias exposições pelo distrito brigantino

Não tem nenhuma formação na área, a não ser o amor à terra-mãe, onde busca criteriosamente os pilares da sua criação. Contudo, quem se depara com os seus trabalhos não fica indiferente ao seu engenho e arte no modo como fantasia as suas obras.
Um artesão às antigas, que desenha e esculpe as suas peças de forma primitiva, sem a ajuda das novas tecnologias.
A essência da obra reside, sobretudo na harmonia entre as várias formas naturais, tal qual um cozinhado, onde nada se descontextualiza. O tempero é macio e viciante.
No total, Paulo Pereira soma já 300 trabalhos e já expôs em vários locais, tais como: Fórum Theatrum (Bragança), Feira das Cantarinhas (Bragança), Macedo, Miranda do Douro e Feira do Fumeiro (Vinhais). Tem ainda uma exposição permanente no centro de Artes da Junta de Freguesia da Sé e no café Petisca’aqui, em Bragança.
No que respeita ao negócio, Paulo Pereira confessa que até tem corrido bem. “Tenho vendido bastante, sobretudo aos emigrantes que vivem em Espanha e França. Noto que eles se identificam bastante com as minhas obras, daí que este mês de Agosto tenha corrido de feição”, conta.
O preço das peças pode variar entre os 30 e os 250 euros, dependendo do tamanho, dos enfeites e do tempo de trabalho.
A despedida entre o criador e o objecto recriado nem sempre é fácil. É uma separação de dias de cumplicidade, algumas até de semanas. E não obstante o dinheiro recebido, é “sempre penoso ver uma parte de nós ir embora”.
Em suma, Paulo Pereira é a expressão duma paisagem ou duma alma colectiva, é o elo harmonioso que preserva, acima de tudo, a simplicidade e o estado puro das coisas.
Enfim, um artesão à antiga.