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Mulheres

Ter, 28/08/2007 - 15:27


Estava em Génova, a Soberba, não havia vento, o sol inclemente obrigava ao refúgio nos museus quando tive conhecimento da morte do cineasta Antonioni. Tal como Bergman, também falecido por esses dias, um cineasta devotado em nos criar incertezas e angústias através das mulheres.

Na edição de 23 de Agosto último deste jornal, Maria do Carmo, numa carta aberta dirigida à minha pessoa, agradece as referências que escrevi sobre a Senhora sua mãe e aproveita para estender a homenagem a outras mulheres – de Lagarelhos, a todas as mulheres.
Eu venero as mulheres tendo como arquétipo a minha avó Delfina, Mãe-Coragem assim a defini quando pela primeira vez vi a peça de Brecht, apesar de não apreciar o teatro de quadradinhos do dramaturgo em causa, por sinal péssimo marido como sabem os leitores da sua biografia.
Nascido e criado numa casa orientada e comandada por uma mulher, na qual muitas mulheres passavam tardes e serões entretidas em conversas nem sempre muito canónicas, comandadas pela trama de um fio de intriga e quantas vezes de coscuvilhice a gerarem mal-entendidos (e estou a ser suave) tenho desse tempo imagens de mulheres corajosas e lutadoras num contexto eivado de dificuldades e azedumes estribados no poder do macho – latino, suevo celta e celtibero.
Mulheres de Lagarelhos mães solteiras a não se deixarem domar só porque a paixão, o desejo ou a circunstância as atraiçoou, mulheres de outras terras pobres de pedir mas donas de um olhar límpido e franco a enfrentar outros olhares na hora de agradecer a esmola, mulheres de todas as terras atarefadas em mil trabalhos, sendo preciosas coadjuvantes dos homens no amanho da terra e únicos braços lá em casa no desempenho de tarefas domésticas.
Vi tudo isso, primeiro enquanto feliz na aldeia, depois dorido na cidade, mais tarde radiante enquanto durante quatro anos andei na itinerância cultural a percorrer povoações de Bragança, Vimioso e Vinhais. Muitas mulheres viúvas de vivos empurrados para a emigração por causa da carestia reinante e da guerra colonial. Nessa guerra participei na floresta virgem e inóspita de Cabinda, também por essas paragens topei, o termo é esse, mulheres sacrificadas e sofredoras, a trabalharem na mata enquanto os homens fumavam e passavam a ferro no aconchego da cubata. Por lá encontrei mulheres que após terem passado pela Casa da Tinta faziam o que muito bem lhes apetecia, a começar pelo próprio corpo.
Estas evidências: mulheres fortes e ao mesmo tempo frágeis encontrei nos Açores enquanto lá estive, ou ao Ribatejo província na qual vivo há uns trinta e cinco anos, ou ainda a todos os países onde tenho estado. No entanto, sigo velozmente em direcção ao terrunho natal, assim acontece quase sempre, é verdade. Reparo naquelas mulheres vendedoras de doces ilusões nas feiras e festas, vendiam rebuçados envoltos em fino papel recortado, económicos e outras guloseimas – notáveis mulheres essa e outras como as vinda da margem sul do concelho de Vinhais, não se importando de serem acoimadas de figacheiras, interessava-lhe apenas empurrarem os figos em direcção às cestas das compradoras, longe dos tempos da ingenuidade daquela mulher de Lagarelhos teimosa de não querer receber quantia superior à da sua dívida no acto de vender uma porca, quando o comprador insistia em lhe pagar mais. A astúcia vivia longe de muitas mulheres, mas quando uma natural de Travanca pediu à miúda de Lagarelhos para lhe pegar na filha, enquanto ela enchia o avental com castanhas propriedade da rapariga, esta não hesitou em espetar o alfinete de segurança no rabo do bebé porque o desaforo evidenciado pela mulher lhe pareceu insuportável. Tenho a algibeira repleta de episódios marcantes cuja representação maior está nas mulheres e raparigas que de uma forma ou outra me ajudaram a entender a vida. Uma senhora austera de Vila Verde propiciou-me, em véspera de Natal, uma moeda de cinco escudos – era para a minha consoada, uma rapariga linda de morrer a viver em Vinhais secou-me o coração porque não, a Menina Amélinha do restaurante Machado sempre me tratou com desvelos maternais, uma professora de provecta idade possibilitou-me o acesso a segredos, enfim, no referente às mulheres sou um agradecido a todo o tempo. Podem acreditar!