Ter, 28/08/2007 - 11:01
A sua formação académica passou pela ex-Escola do Magistério Primário de Vila Real, pela Escola Superior de Jornalismo do Porto, pela Universidade de Coimbra, pela Universidade da Beira Interior (UBI) e pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).
Faz parte dos quadros da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde é responsável pelo Sector de Comunicação Institucional, e nesta Universidade integra também a direcção do Observatório da Literatura Infanto-Juvenil (OBLIJ).
É igualmente investigador do Centro de Tradições Populares Portuguesas da Universidade de Lisboa.
Como escritor, a sua obra faz parte do Plano Nacional de Leitura, integra manuais escolares de vários níveis de ensino e é bibliografia obrigatória em cursos de licenciatura e mestrado em escolas superiores e universidades.
É autor de mais de três dezenas de livros, no domínio da literatura oral tradicional e da literatura infantil.
Jornal NORDESTE (JN) – Com que idade começou a escrever?
Alexandre Parafita (AP) – Na infância, aí pelos 10, 11 anos. Era eu quem escrevia as cartas para África e para França de algumas pessoas idosas e analfabetas, na minha rua, em Sabrosa. A troco dos meus 25 tostões quase sempre. Em algumas circunstâncias já era eu que tinha de enfatizar, com o jogo das palavras, a dimensão dos sentimentos, das angústias e das saudades que as pessoas viviam. Era, por isso, já uma operação literária. E mais que isso, já auferia dos meus direitos de autor. Comecei, portanto, muito cedo.
JN – De que modo as suas vivências influenciam a sua obra?
AP – O contexto destas vivências, já que fui criado, durante parte da infância, pelos meus avós maternos, foi fundamental na organização dos afectos. Aí recebi, por isso, o primeiro impulso para o meu percurso criativo.
JN - Procura, pois, transpor para os seus livros as memórias da infância vividas na região de Trás-os-Montes e Alto Douro?
AP - Isso é inevitável, e muitos dos meus livros são disso testemunha. Contudo, o meu objectivo não é esse, até porque alguns dos meus livros estão a ser traduzidos e publicados noutros países. Se me prender em demasia a uma realidade etno-cultural específica, arriscar-me-ei a não chegar tão facilmente a leitores de outras culturas.
JN – Escritor, jornalista, professor ou investigador?
AP – Tenho sido de tudo um pouco. E tudo isso se interliga. Por exemplo, continuo a fazer muita investigação para poder depois escrever livros.
JN – É lido por muitos milhares de crianças e alguns dos seus livros têm tido reedições sucessivas. Como explica tamanho sucesso?
AP – Tamanho sucesso é, seguramente, um exagero seu. Apenas reconheço que alguns dos meus livros têm tido boa aceitação. E isso deve-se, a meu ver, à natureza das preocupações didáctico-educativas que sempre procuro abordar. Conheço bem o universo educativo, fui professor de centenas de professores em complementos de formação, tenho por isso obrigação de conhecer bem este terreno.
JN – O facto de ser transmontano prejudica a sua carreira literária, não obstante o êxito alcançado até agora?
AP – Pelo contrário. O ser transmontano é, hoje, uma grande vantagem para quem sabe tirar partido dessa condição. Isso a todos os níveis, mas na área cultural muito mais. Trás-os-Montes possui, ao nível das fontes, a matéria-prima que as grandes cidades invejam.
JN – Os seus trabalhos, como investigador de literatura oral tradicional, permitiram-lhe já resgatar muitos textos inéditos em risco de perderem-se na memória oral do povo. Porquê essa necessidade em andar “de terra em terra”?
AP – Grande parte desse trabalho foi realizado no âmbito do meu Doutoramento, e aí as motivações são óbvias. Acontece que sem paixão nada se faz. E eu comecei cedo a descobrir que a nossa memória cultural perder-se-á irremediavelmente se não voltarmos ao terreno, ao campo, às raízes, a recuperar os testemunhos que ainda existem.
JN – Porque escolheu a literatura infantil, literatura oral tradicional e cultura popular para escrever?
AP – A literatura infantil tem a ver com uma vocação que alimento praticamente desde a adolescência, quando entrei na Escola do Magistério para tirar o curso de professor primário. Essa foi sempre a minha maior vocação. Assim, escrevo hoje para as crianças porque, uma vez que não exerço a profissão para que me formei há mais de 20 anos, entendo que é esta a melhor forma de continuar a comunicar com elas. Quanto às outras áreas da minha escrita, têm a ver com as áreas de estudos em que me especializei.
JN – A literatura infantil é sempre uma herança tradicional?
AP – Nem sempre. Mas a melhor literatura infantil é, seguramente, aquela que recupera a eficácia narrativa das histórias tradicionais, aquelas que se contavam à lareira. E todas as inovações que venham a ser feitas jamais poderão ignorar este princípio.
JN – Como foram as primeiras sensações no caminho da leitura? A literatura infantil é ainda mais lúdica? Quando percebeu que era este o seu caminho?
AP – Os meus primeiros livros, tirando os manuais escolares, eram os que chegavam às aldeias e vilas nas velhas furgonetas da Gulbenkian. E eram sempre os livros de aventuras. Tarzan, a Ilha do Tesouro, O último dos Moicanos, etc. Na altura o estereótipo da literatura infantil não existia como hoje. Líamos tudo o que agarrávamos. E quanto ao meu ingresso nestas andanças da literatura, só o perspectivei quando conclui o Magistério Primário e decidi abraçar o jornalismo.
JN – Como avalia a adopção pelo Plano Nacional de Leitura (PNL) de um número significativo de livros seus? Podia enumerá-los?
AP – É muito gratificante para um autor. São muitos milhares de crianças e jovens de todo o país a ler de forma empenhada os meus livros. Agradou-me também verificar que foram seleccionados livros meus para os diversos níveis etários e escolares, desde os 6 anos de idade. É nestas idades que todas as sementes podem dar frutos.
Os livros que fazem parte do PNL são: “A mala vazia”, “Contos de animais com manhas de gente”, “Banca-Flor, o príncipe e o demónio”, “As três touquinhas brancas”, “Histórias de Natal contadas em verso”, “Histórias a rimar para ler e brincar”, “Memórias de um cavalinho de pau” e “Diabos, diabritos e outros mafarricos” e por inerência deste último livro, também fazem ainda parte: “Bruxas, feiticeiras e suas maroteiras” e “Histórias de arte e manhas”.
JN – Os títulos das suas obras são curiosos e sugestivos. Costuma escrevê-las partindo do título ou este só lhe ocorre no meio ou mesmo no fim da obra?
AP – Acontece das várias formas. Mas a maioria das vezes o título vai-se esboçando à medida que evolui a concepção do livro. Mas acontece também, por vezes, os livros serem histórias que se agarram a uma delas em que o título é um pouco mais sugestivo. Por exemplo, “Chovia ouro no bosque”, “Vou morar no arco-íris”, “O conselheiro do rei”, “As três touquinhas brancas”, etc.
JN – Qual foi o livro que mais prazer lhe deu escrever?
AP – Todos eles, de uma maneira ou de outra, me deram muito prazer. Contudo, para adultos, reconheço que dei o meu melhor no livro “A mitologia dos mouros”. Para crianças, há um livro a sair em breve, com o título “Pastor de rimas”, que é, seguramente, aquele que mais me emocionou escrever.
JN – Qual foi o livro que o obrigou a fazer mais pesquisa?
AP – Para o livro “A mitologia dos mouros” andei cinco anos a pesquisar, sem ter férias, nem fins-de-semana. Corri dezenas de aldeias, lares de 3ª idade, andei pelos montes, pelas ruínas dos castros, pelas grutas. Mas valeu a pena. Quando aos livros de literatura infantil, procuro também ser o mais rigoroso possível quando falo de animais, do seu habitat, etc., o que me obriga sempre, em todos eles, a cuidadosas pesquisas e consultas.
JN – Aceita, praticamente, todos os convites das escolas nacionais para interagir, sobretudo, com as crianças. É gratificante o contacto assíduo com os leitores?
AP – Infelizmente não posso aceitar todos os convites, que me vêm de todo o país, seja por intermédio das escolas e bibliotecas, seja pelas editoras. Mas sempre que posso, vou, pois isso é muito importante, não só para a evolução qualitativa dos meus livros, mas sobretudo porque as crianças, com esse contacto, ficam sempre mais motivadas para a leitura. Para elas, tão importante como a histórias dos livros é, por vezes, a história pessoal de quem as escreve.
JN - Concorda com Vergílio Ferreira, quando diz que “o grande sonho de todo o escritor – se o tiver – será o de nunca encontrar o leitor ideal. Porque se o encontrasse a sua obra morreria aí”?
AP – De certa forma concordo. O leitor ideal está sempre por achar. E a literatura infantil é disso bem o exemplo. O leitor de há 20 anos é muito diferente do de hoje. E o de amanhã, sabe-se lá. E quem nos dias de hoje se fecha na casca de noz que criou há 20 ou 30 anos atrás, arrisca-se a escrever para o vazio. Sobretudo tratando-se de crianças, elas só lêem o que lhes dá prazer e que está bem sintonizado com o seu tempo, seja em termos de linguagem, seja em termos de conteúdo. Um adulto sempre pode ler um determinado autor, ainda que ele seja uma seca, só porque é socialmente correcto lê-lo ou conhecê-lo. Uma criança não. As crianças não fazem fretes a ninguém. E ainda bem.
JN - Sendo, consensualmente, considerado um dos autores mais importantes na literatura infantil portuguesa, possui uma obra bastante extensa e diversificada, que integra textos de raiz popular e tradicional. Reconhece a importância fundamental da literatura infantil enquanto veículo de regras da sociedade e/ou comportamentos sociais?
AP – A literatura infantil tem um papel fundamental no estímulo à imaginação e à criatividade, mas também na educação da sensibilidade e do respeito pelos valores. A criança, que vive na fase de se apropriar de modelos, mas também na de aprender a distinguir as dicotomias essenciais com que a vida a confronta, tais como o bem e o mal, a fidelidade e a hipocrisia, a coragem e a cobardia, vai encontrar na boa literatura infantil um suporte formativo valiosíssimo. O livro é, por isso, um companheiro único, aquele que sabe segredar como nenhum as mensagens certas ao inconsciente do pequeno leitor.
JN – Trás-os-Montes é o seu “arco-íris”?
AP – Em boa verdade é. Mas não sou dos que se prendem irremediavelmente a uma terra por nela ter nascido. Nada disso. Hoje em dia até se pode nascer dentro de um avião. O que Trás-os-Montes tem de mais sublime ainda é, como diz Torga, o excesso de natureza. E a mim é, de facto, este excesso de natureza, física e humana, que continua a deslumbrar-me.
JN – Grande parte dos seus livros tem ilustrações muito coloridas e atractivas. Uma imagem vale mais do que 1000 palavras, especialmente para os mais jovens?
AP – Na literatura infantil as imagens têm cada vez importância maior. E não só porque despertam a atenção sobre o conteúdo, mas também porque propiciam uma outra leitura, uma outra descoberta, sobre o conteúdo. E quanto mais a literatura infantil for um desafio à descoberta, melhor ela cumpre o seu papel.
JN – Tem algum livro novo na forja?
AP – Para crianças sairá, dentro de um ou dois meses, um novo livro intitulado “Pastor de rimas”. Estou também a preparar uma outra obra, a lançar em Dezembro, sobre os Mitos e as Lendas do Douro.



