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Os Castello Lopes deste País

Ter, 21/08/2007 - 14:42


Em tempos de profunda e agudizada crise económica, a maioria dos portugueses, principalmente os que mais a sentem na pele, interrogam-se acerca da origem dos avultados lucros dos grandes grupos económicos que operam no nosso país, entre outros, o sector da banca, dos seguros, das telecomunicações, as grandes superfícies e o negócio das cadeias alimentares. Obviamente que não é necessário ser-se diplomado em economia, ou em qualquer outra área similar, para nos darmos conta de que muitas das grandes empresas que prosperam e respiram saúde financeira, de um modo geral, o conseguem porque encaram a actividade comercial numa perspectiva diametralmente oposta à dos agentes económicos que representam o chamado Comércio Tradicional, nomeadamente quanto à forma como se posicionam perante o cliente e os métodos utilizados para persuadir os destinatários do produto vendável. Para que possamos ter a noção destas diferenças entre aqueles a quem, pela impertinência e vicissitudes do mercado, o negócio vai de vento em popa e estoutros que estão perante a iminência da “corda no pescoço”, vou submeter à apreciação do leitor dois exemplos que as confirmam, presenciadas por mim na “meca bragançana do consumismo”, o Fórum Theatrum.

Numa das raras e fugidias passagens pela “Praça da Alimentação” – assim se chama, julgo, agora, nos centros comerciais, ao espaço destinado às refeições -, reparei que um adolescente, depois de pagar e de lhe ser entregue o “menu” escolhido, teve o azar de deixar cair, do tabuleiro que o sustinha, a respectiva bebida (um dos símbolos do país do Tio Sam), com alarves quantidades de gelo, como convém, claro, a quem “presta” o serviço. Perante o desconforto e o embaraço do miúdo – provavelmente o dinheiro seria mais ou menos racionalizado -, a empregada que o serviu, cumprindo ordens expressas dum patrão sem rosto, limitou-se, a pedido do petiz, a repor o “indissociável” complemento da, quanto a mim, sensaborosa “comida de plástico”, mas assegurando um novo pagamento.
Esta falta de sensibilidade, este atendimento maquinal e despersonalizado, que se resume a pouco mais do que ao mero “quem é a seguir?” e à informação do preço da “mercadoria”, esta arte de impingir, quase sempre exercida na ausência da recomendável seriedade, gera, outra coisa não se esperaria, consideráveis e estrondosos efeitos de facturação.
Está-se mesmo a ver, uma situação semelhante, transposta para o Comércio Tradicional, teria, indubitavelmente, outro desfecho, fosse o cliente adulto ou criança, homem ou mulher. Aqui, porque a relação entre quem serve e é servido tem por base o respeito e amizade, um copo que se parte, um café que se entorna, um prato de moelas que, inadvertidamente, cai ao chão, têm não mais do que o significado de apenas alguns pequenos prejuízos materiais (todos somados teriam uma significativa expressão); e, como tal, assumidos pelo “dono da casa”, em nome de valores não mensuráveis e não passíveis de contabilizar.
No primeiro piso desta infra-estrutura encontra-se outro paradigma do espírito calculista com que se encara o acto empresarial, a saber, a reconhecida empresa “Filmes Castello Lopes”, simplesmente o dinossauro rex do panorama cinematográfico nacional.
Perante o apelo paternal, entendi presentear, no último dia de aulas, a minha pequenada com uma ida ao cinema. A surpresa não podia ser maior, porque na referida sala estava em exibição a estreia do filme Sheek 3. Desta experiência quase isolada – raramente vou ao cinema – retive três lamentáveis passagens, só possíveis devido à falta de concorrência, porque estes senhores têm o privilégio de deter o monopólio desta actividade, em virtude do Cine Teatro Torralta, de tão agradáveis recordações, ter encerrado definitivamente as portas.
Duas semanas antes da estreia, numa campanha de marketing rasteiro, esta empresa oferecia um vale de ingresso, destinado a quem tivesse marcado presença num filme anterior. Estes rapazes, guitchos, como previam lotação esgotada para todas as sessões da referida película – a mesma foi exibida durante uma semana, mais coisa, menos coisa -, acautelaram os clientes, em letra quase imperceptível, que o mesmo não era válido para o Sherek. Facto que para mim não foi materialmente danoso, porque sou pouco dado a borlices. Simplesmente fiquei perturbado com o baixo golpe utilizado.
À entrada do cinema, como é habitual neste género de casas, estão afixadas as regras estabelecidas para se lhe aceder. Sendo que numa das alíneas se diz não ser permitida a entrada de produtos alimentares vindos de fora. Até aqui, tudo bem. Mas quando olhei para o preçário, eu que nada tenho de forreta, muito pelo contrário, perguntei-me se o vicejante Algarve não teria subido à província. Comparação nada excessiva, se repararmos que, no bar do dito cinema, uma garrafa de água das pequenas custa a exorbitante quantia de 1,4€; ou seja, o dobro do preço praticado pelo vizinho do lado.
Em todas as salas de cinema do país, mesmo desta empresa, segundo me foi dito por um dos funcionários, o preço dos bilhetes dos adultos e das crianças é distinto. O próprio Cine Teatro Torralta fazia essa justa distinção. A “Filmes Castello Lopes” não a faz, naturalmente porque não é incomodada, nesta cidade, pela concorrência; o que é pena!
As situações descritas e outras que, necessariamente, passam ao lado do cidadão mais distraído, são, grosso – modo, o substrato daquilo que se entende por sucesso empresarial. Por outras palavras: a filosofia do vale tudo, a frieza de espírito com que se encara o exercício comercial, a visão coisificada do consumidor, ajudam-nos a perceber o venturoso segredo empresarial.