Ter, 21/08/2007 - 10:50
Com uma origem que se perde na memória dos mais velhos, a Banda de Latos apenas saía à rua na altura do Carnaval, mas após o pedido recente de algumas pessoas, começou a actuar em várias épocas do ano, indistintamente. “Antigamente, a tradição dizia que só tocavam no Entrudo, mas algumas pessoas acharam-nos graça e pediram-nos para tocarmos noutras alturas”, explicou o presidente da Junta de Freguesia de Bagueixe (JFB), Jorge Fernandes.
Contudo, esta mudança na tradição não foi bem recebida por alguns populares, especialmente os mais velhos, que defendem que as actuações se devem cingir à época carnavalesca. “Há pessoas da terra que dizem que devíamos seguir a tradição”, reconhece o autarca.
Qualquer pessoa, independentemente da idade pode integrar a Banda, desde que seja de Bagueixe e consiga manter o ritmo dos parceiros. “Os filhos de emigrantes também podem tocar e as crianças começam a andar atrás dos mais velhos desde cedo, pelo que, ao fim de pouco tempo, já sabem tocar de ouvido”, explicou João Esteves, natural de Bagueixe, mas emigrante em França.
Em cena estão, assim, objectos do quotidiano que fazem barulho, como baldes de lata, enxadas ou chocalhos que, batidos ao mesmo ritmo, originam os sons que já levaram a Banda de Latos de Bagueixe a várias localidades. “Temos espectáculos marcados para aldeias vizinhas e, também, para Espanha. O dinheiro que resulta das actuações vai para a Associação Cultural, Recreativa e Desportiva da aldeia”, acrescentou o responsável.
Histórias e lendas ligam a tradição de bater os latos aos lobos e a habitantes mais pobres
Apesar de ninguém ter idade suficiente para se recordar da origem desta tradição, muitos populares associam o bater dos latos aos pastores que, para protegerem os seus rebanhos dos lobos, faziam barulho com a ajuda de metais. “Dizia-se que estes sons serviam para afugentar os lobos que atacavam o gado”, sublinhou Jorge Fernandes.
Já João Esteves conta que os utensílios de metal eram utilizados pelos pobres que, não tendo o que comer, protestavam à porta dos senhorios com uns latos velhos. “Era uma forma de demonstrarem aos mais ricos que não tinham comida”, salientou o emigrante. Contudo, acrescenta que “é uma tradição que se vivia em todas as aldeias desta zona, mas que só permaneceu viva em Bagueixe”.
Apesar da origem da Banda de Latos ser enigmática, Costa Moleiro, também emigrante em França, recorda que, antigamente, um rigoroso mestre do grupo obrigava os seus elementos a andarem na lama e “ai de quem se enganasse no ritmo”. O popular relata, ainda que, o maestro “com a ajuda de um cacete, ia alinhando quem se desviasse da fila ou chamava a atenção de quem não acertava o ritmo”.
Nessa altura, sempre no Carnaval, o grupo de tocadores dava a volta ao povo em busca de vinho em todas as casas. “Chegávamos ao final do desfile bem animados, após termos sido casados, na brincadeira, com as raparigas da aldeia”, recorda Costa Moleiro.



