Ter, 07/08/2007 - 11:55
Se as personagens vicentinas tipificam, nas suas particularidades generalizantes, tantas e tão diversas formas de se pertencer ao género humano, será difícil que muitos de nós não nos revejamos no desajuste desajeitado em que o pouco listo Pêro Marques se acha involuntariamente enredado. Porque acabamos frequentemente por nos embasbacar não só com a nossa incapacidade de compreensão, mas sobretudo com o facto dela provocar um efeito de incompreensão muito maior junto dos outros que nos olham.
Há dias, nos calores do pós-almoço de um sábado pasmado, andava eu em busca de um lugarzinho moderadamente ensolarado, no atafulhado parque de estacionamento de uma grande superfície brigantina. Arrumado o veículo, dirijo-me para a entrada do hipermercado, arrastando, pouco entusiasmada, o carrinho das compras e os meus pés. E vejo uma viatura, das de certo e muito lista, a ser aparcada junto à porta, no espaço reservado aos veículos para deficientes. Assim mesmo, à grande e à portuguesa. O que revela uma dose dupla de optimismo: porque o condutor em causa terá presumido que deficientes há poucos e, depois, a eficiente lei das probabilidades ter-lhe-á certamente sussurrado ao ouvido que enquanto por ali andasse seria altamente improvável que algum chegasse. Mas eu, pouco amiga do chico-espertismo e nada fiada na Virgem, fui alertar o Segurança de serviço, que não andava longe. Quando lhe relatei o sucedido e lhe lembrei as consequências daquele tipo de atitude, o senhor Segurança olhou-me, seguro de que eu era uma ranhosa que estava ali só para o tirar do sério e dos seus certamente inadiáveis afazeres. E perguntou-me:
- E acha que vale a pena?
- Por acaso, acho.
Perdido de irritação, o Segurança fitou-me com um olhar onde se lia em rodapé: “mas esta pensa que eu não estou de serviço, é?”.
E porque estamos em Bragança, onde o parque automóvel se arrama, muitas são as histórias de quatro rodas paralelas. Veja-se o caso de uma amiga minha, cujo carro estava ordeiramente estacionado numa rua central de Bragança, quando – já atrasada para o emprego – ela constatou que a saída estava barrada por um outro veículo. Enervada, a minha amiga não pensou em dar o alarme buzinístico, porque é uma pessoa que odeia ruído e até se assusta com o próprio som da sua voz rouca. Por isso, civilizadamente, procurou uma força de segurança, enfim, um agente da polícia, que acabou por encontrar um quarteirão adiante. Quinze minutos mais tarde, a arfar do esforço, o senhor Guarda lá chegou, ciceronado pela minha amiga, ao local do delito, onde tudo estava exactamente na mesma. E eis que olha para o carro infractor e o reconhece.
- Mas eu conheço este carro. Muito bem, até! A senhora já buzinou? Hein? Não me diga que não buzinou... Se não, como é que quer que ele saiba...?
- Eu? Eu, não – amedrontou-se a minha amiga, já com medo de ser autuada por não ter querido desassossegar a rua.
- Mas então buzine, valha-me Deus! De que está à espera? Buzine, senhora! Francamente! A fazer-me perder o meu tempo...
E a minha amiga, a custo, primeiro; depois, tomando-lhe o gosto, e a seguir já quase com volúpia, lá fez o jeito. Quando voltou a olhar para trás, o carro já tinha desarvorado.
- Ora vê? A senhora não precisa da polícia, precisa é de uma mão forte – concluiu o senhor Guarda, visivelmente aliviado com o resultado de tão estridente esforço.
Paciente leitor, faça um teste à sua capacidade de desajuste e pense em qual destes papéis mais facilmente se reveria.
E porque dos verdadeiros artistas deve rezar qualquer história, por hoje termino, referindo e elogiando a iniciativa do Teatro Municipal, pelos concertos de Julho passado, na sua esplanada, aos sábados à noite. E, em particular, o mais que surpreendente concerto (21 de Julho) de uma banda que eu desconhecia: “Oquestrada”. Vindos de Almada, apresentaram um espectáculo viciante, onde a sonoridade acústica se fez de uma fusão imprevisível de jazz, ska, pop e funaná. Quem os perdeu, procure-os. Não há-de ser difícil. Como eles próprios dizem, o que pretendem é “orquestrar a estrada, os caminhos que percorremos, o imprevisto”.



