Ter, 10/07/2007 - 10:24
Actualmente, esta prática é relembrada com iniciativas como a Rota do Café, um certame que decorreu em Miranda, promovido pela Associação Comercial e Industrial do Concelho de Miranda do Douro (ACIMD), para dar a conhecer a outra face do comércio fronteiriço e, ao mesmo tempo, divulgar o café português.
Manuel Arribas, de 80 anos, conta que quando teve conhecimento da realização da rota do contrabando, não hesitou em contar as suas memórias. Bem disposto, o ex-contrabandista foi dizendo que levar café para o outro lado e trazer dinheiro para casa não era tarefa fácil. “Além dos obstáculos naturais das Arribas do Douro, tínhamos sempre que contar com a Guarda-Fiscal e os Carabineiros, que controlavam, com olhos de águia, toda a região. Não era fácil enganá-los”, recorda Manuel Arribas.
O habitante da Freixiosa afirma que conhecia os perigos que os esperavam, mas o contrabando de café era uma actividade lucrativa. “Estávamos organizados em grupos e conseguíamos levar para Espanha, de uma só vez, vários sacos de café com cerca de 25 quilos. No regresso vinha o dinheiro e outros produtos que serviam como moeda de troca, que eram facilmente vendidos nas aldeias do concelho”, explicou.
Antiga Alfândega de Miranda do Douro reuniu portugueses e espanhóis a tomar café
Por seu lado, Ângelo Arribas, de 71 anos, é, actualmente, reformado da EDP e lembra que também correu montes e vales ou dormiu muitas noites ao relento por causa do contrabando. Mas, chegou o dia em que teve de optar por um emprego estável, com futuro, e não olhou para trás. Apesar de só ganhar cerca de 500 escudo por mês, não tinha que enfrentar os perigos. “No meu tempo, os rapazes e raparigas com 15 a 20 anos de idade preferiam o contrabando porque dava dinheiro. O que eu ganhava num mês eles ganhavam num dia. Depois, com a construção das barragens do Douro Internacional, muita gente abandonou a actividade”, recordou.
Segundo o presidente da ACIMD, Artur Nunes, os tempos mudaram e os vizinhos espanhóis foram convidados a tomar café gratuito numa explanada junto à antiga alfândega. Além disso, também puderam dar um passeio pela zona histórica, onde a bebida foi servida a 40 cêntimos em 18 estabelecimentos aderentes.
A iniciativa é, igualmente, encarada como uma forma de potenciar o comércio de Miranda do Douro, como aconteceu com a Semana Gastronómica do Bacalhau, realizada no passado mês de Janeiro.
No próximo ano, a ACIMD não exclui a possibilidade de criar trajectos para que o visitante fique a conhecer melhor os percursos dos contrabandistas, tanto na raia seca como no Douro Internacional.



