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O Santo

Ter, 03/07/2007 - 11:24


O Santo é o Senhor São Pedro, orago tutelar da célebre aldeia de Lagarelhos que não está no Guiness Book por descuido das eminentes autoridades, e descarado desleixo dos actores da peça parlamentar em devido tempo representada com tanto ardor como se fossem profissionais num teatro de programação exigente assim a modos de Old Vic. Há na vida momentos em que o tempo começa arrastar-se notavelmente, como se hesitasse em avançar, fixando-se numa data, numa recordação, numa atitude. Talvez ganhasse em saltar o tempo, no entanto, o Santo por esta altura do ano aparece-me por cima da paisagem esteja onde estiver. O galo ao qual está intimamente associado, chamava a atenção das companheiras quando iniciei a marcha quotidiana, recordei-me da mancha no currículo do Santo, mais em jeito de desculpa por não o visitar há muitos e muitos meses, do que para lhe assacar pecados pois até os santos os cometem, grandes, enormes a motivarem grossa penitência.

O Pedro apóstolo teve de se dobrar uma série de vezes a fim de apanhar as cerejas – uma a uma –, porque altaneiro entendeu não o fazer quando o Mestre lhe disse para retirar uma ferradura do chão. O Santo enviou-me uma mensagem repleta de imagens e uma frase: levavas uma bela vida em Lagarelhos. Pois: durante o dia, comia as primícias das árvores de fruto, percorria o povo em folguedos vivos e rápidos, atirava impropérios e água às raparigas, o ar desmesurado da Primavera e do Verão impelia-me a banhos nos poços, em porranchas diga-se em abono da verdade, sem daí advirem censuras ou ralhos. A escola, que era uma sala, tinha por baixo porcos em alegre comunicação, os mais adiantados no quadro faziam contas, nós da primeira ficávamos no último banco deliciados a contemplar o rapaz caído da árvore a gritar: “ui”, duas vogais unidas. Por serem tão pobres muitos meninos levavam lêndeas e piolhos nos andrajos e nos cabelos, a minha avó praguejava enquanto me metia a cabeça numa bacia cheia de água. O tempo corria, depois de um período de vida confortável, parti com pouca tralha, até hoje. O Santo enviou-me nova mensagem – na última vez que nos vimos estavas tu na varanda da velha casa, passei empoleirado nos ombros dos mordomos opados a vermelho, as mulheres cantavam e tu nem uma colcha tinhas colocado no varandim. Fiquei fulo contigo, a velha Delfina não gostou, até porque as colchas estão no malão na antiga sala, ou estás numa de cosmopolita ou de lafrau –, até foste ao ponto de me piscares olho direito. Recordas-te? Sim, respondi entranhamente fatigado, o Santo além de saber muito porque é velho, tem os livros sempre em dia, certamente, encontrou a saudosa Fargana e comentaram os meus passos e percursos, nada a fazer, o melhor era falar francamente com Ele. Sabe: Sr. São Pedro, depois de sair de Lagarelhos sempre imaginei estar a viver na realidade irreal de modo a suportar a saudade, depois tendo andado muito atarefado a correr Mundo, a namorar, a casar, a descasar, a casar novamente, porque a solidão provoca-me cócegas, a cometer pecados a fim de o Senhor Santo ter o trabalho de os anotar, no referente às colchas estou muito penalizado e prometo colocar quatro ou cinco numa próxima festa. No que tange à procissão faltava o toque de alegria dado pelos rapazes e raparigas donas vozes díspares – potentes, agudas, esganiçadas, de cana rachada a denunciarem falta de amparo afectivo, estou a ser reservado por óbvias razões de respeito. Noutros tempos assim acontecia, a aldeia despovoou-se. Nada a fazer! Sabe: festa, festa a valer era quando havia luz mortiça no arraial a cegar as mães e avós, tangos e passo-dobles gritados nos discos de vinil. Agora, colocam umas deslavadas e deslavados a cantarem em cima de um reboque e luz violenta. Um desconchavo! Uma coisa continua a ser igual – a maioria dos dançantes mexem os braços numa clara imitação dos passarinhos. O Santo finalizou a conversa com uma curta e seca mensagem – Lafrau continuas a ser, vê lá se apareces para continuarmos a conversa! Lá irei. A morrinha, a morrinha!