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Incongruências.

Ter, 19/06/2007 - 11:24


Creio ser pacífico concordar-se que as instituições de ensino superior situadas em localidades do interior do país têm sido baluartes na sustentação económica dessas localidades, nomeadamente e essencialmente pelo contributo decisivo no sentido de estancar ou pelo menos desacelerar a desertificação dessas zonas. Esse processo é indissociável da capacidade de atracção emanada por cada instituição, influenciando proporcionalmente a essa capacidade a economia das localidades onde se inserem. “A produção de conhecimento é uma das funções primordiais das universidades.

Integradas nas cidades, quando as autarquias sabem aproveitar este conhecimento para desenvolver o seu território, nascem urbes mais desenvolvidas e com maior potencial para singrar num contexto territorial”, defende Carlos Zorrinho [1], coordenador nacional da Estratégia de Lisboa e do Plano Tecnológico.
A potenciação socio-económica da existência de uma instituição de ensino superior numa determinada localidade depende, em grande medida, da estratégia definida pela própria instituição, mas também da estratégia de relacionamento que a autarquia que a alberga definiu para com esta.
A estrutura socio-económica de Bragança tem sido suportada, em grande parte, ao longo dos últimos 20 anos no crescimento do Instituto Politécnico de Bragança (IPB). Nos últimos tempos tem sido visível o reconhecimento nacional e internacional da qualidade do IPB, mostrando que este tem vindo a cumprir paulatina e consistentemente um percurso de afirmação.
Sendo duas faces de uma mesma moeda, IPB e Câmara Municipal de Bragança (CMB), devem pensar em conjunto estratégias de desenvolvimento e sustentabilidade para a cidade, uma vez que se influenciam e reforçam mutuamente. Esta premissa generalista, torna-se mais evidente e premente se nos focarmos na vertente tecnológica. “A produção de conhecimentos pode ser uma mais-valia para o desenvolvimento de uma cidade, mas tudo depende do grau de assimilação e retenção da cidade e da forma como a estratégia”, da instituição de ensino superior, “se interliga com a de afirmação da própria urbe …. As universidades oferecem conhecimento, público sofisticado e potenciais empreendedores. À cidade cabe potenciar esta procura e criar um ambiente favorável à fixação de trabalhadores e indústrias do conhecimento”[1].
Entendida a necessidade da dicotomia e tendo presente o seu funcionamento, devemos reflectir sobre a necessidade de retomar em Bragança o debate no sentido de averiguar se a CMB, cumpre de facto, a função de potenciação deste capital intelectual, quer seja por cooperação, quer seja por fomentação de condições convergentes com a criação de um ambiente favorável à fixação de trabalhadores e indústrias do conhecimento ou de outra índole.
Façamos uma reflexão em torno da nova zona industrial de Bragança (Mós), e do Centro de Investigação, Inovação e Acolhimento de Empresas (CIIAE), uma vez que são matérias de capital importância para o futuro de Bragança e se inserem no domínio deste artigo.
A Zona Industrial de Mós (ZIM) deveria ter emergido com base numa estratégia, que a existir desconhecemos. Tem sido profícuo o debate sobre as ditas “core-competences” ou “clusters” industriais sobre os quais se deverão reunir sinergias. A questão permanece, serviram para quê? Qual foi a sua eficácia? O resultado desses debates é meramente especulativo, baseado em opiniões empíricas mas sem recurso a dados concretos, não permitindo definir com clareza e níveis de viabilidade o caminho a seguir. A definição destas linhas orientadoras deveria ser considerada num Plano Director ou Regulamento de Condomínio Industrial da ZIM. No entanto deparamo-nos com a definição da localização concretizada, sem sabermos qual o caminho a enveredar. O tipo de indústria no qual Bragança deverá apostar converge com as características e condicionantes da zona de implantação? Não há dados que permitam responder a esta questão.
O estabelecimento de uma zona industrial consistente, adequada e competitiva, requer a realização de estudos de implantação, que permitirão, entre outras conclusões, definir a melhor localização da referida zona. Neste particular vislumbra-se aqui um foco potencial da referida necessidade e vantagem de sinergias IPB/CMB. Não sabemos se tal interacção existiu, temos apenas o resultado concretizado na ZIM, não entrando no debate, por falta de dados, sobre se é ou não o local mais indicado.
Tendo em conta a realidade que nos é apresentada, seria agora necessário a elaboração de um Regulamento de Condomínio Industrial que normalize e governe todo o ciclo de funcionamento da ZIM. A este seguir-se-ia uma “agressiva” campanha de cativação de investimentos/projectos mediante a divulgação das virtudes da ZIM e potencial circundante (existência de mão de obra tipo operários de linha ou chão de fábrica e também tipo altamente especializada, o estabelecimento de taxas de instalação reduzidas e competitivas com zonas industriais concorrentes, proximidade com Espanha, etc.). Não seria este um processo onde a existência do IPB seria de aproveitar? Fica a interrogação.
Também relativamente ao Centro de Investigação, Inovação e Acolhimento de Empresas (CIIAE), consideramos que a vantagem da existência de uma instituição de ensino superior na região não foi aproveitada. O Estudo inicial foi encomendado à Sociedade Portuguesa de Inovação – Consultoria Empresarial e Fomento da Inovação, SA (SPI), vindo esta posteriormente a protocolar uma colaboração com a Universidade de Aveiro, passando assim todo o processo ao lado da instituição de ensino superior da cidade, o IPB. Não nos parece que com esta conduta Bragança convirja com o referido no início do documento que preconizava como mais valia para as cidades terem nelas sedeada uma instituição de ensino superior.
Ao deixar o IPB à margem de um processo desta natureza, a CMB não só desaproveita essa mais valia pelos factores relatados, como deixa de parte o seu interlocutor estratégico privilegiado, não só pela proximidade, como pela competência técnica e conhecimento da realidade regional.
Mais uma vez, cabe à CMB arrepiar caminho enquanto é tempo, num processo que consideramos como inaceitável e incompreensível.

Luís Pires, Coordenador do Grupo Municipal do PS na Assembleia Municipal de Bragança.

Freitas, M., Na rota do saber, in Expresso. 2007.
URL. http://expressoemprego.clix.pt/scripts/Actueel/display-article.asp?ID=1752.