Um olhar sobre os 44 anos depois de Abril

Ter, 24/04/2018 - 10:08


Completam-se amanhã quarenta e quatro anos sobre o dia em que floriram cravos nas mãos e nos canos das espingardas neste Portugal, país do poente, sempre promessa de madrugadas empolgantes e manhãs radiosas, enquanto não chegam tardes entediantes e vésperas de desânimo.
Do alto destas montanhas podemos olhar para o tempo que passou e concluir que o país não ficou muito diferente. Fartamo-nos de sonhar com quintos impérios da alma, mas continuamos a revolver-nos em pesadelos que nos doem no corpo todos os dias, tolhendo a vontade de chegar além da tristeza e da desilusão.
A festa foi intensa naquela Primavera, mas durou pouco. Por Setembro o país dividia-se, iniciando um percurso que culminou na ruptura, em Março do ano seguinte, uma quase guerra civil que poderia tornar-se numa tragédia para muito tempo.
O mundo de então vivia a longa experiência da política de blocos ideológico-militares, apesar de tudo mais tranquilizadora que o caos actual, selva de predadores sem controle, que se dão a caprichos sanguinários, sem objectivo para além do terror diabólico.
Nesse tempo as lideranças europeias tinham um norte estratégico. Por isso, não baixaram a guarda, permitindo que Novembro do segundo ano dos cravos fosse tempo de consolidação democrática, num país que se poderia ter perdido para sempre. Permanecerá a memória da coragem que permitiu resistir a tentativas de tomada do poder, empenhadas em replicar modelos que, dali a poucos anos, entraram em fragorosa ruína, mesmo se ainda prolongam agonias na Coreia do Norte, em Cuba, na Nicarágua e nesse caso paradigmático, triste e miserável da Venezuela.
Entretanto o país absorvera, com relativa tranquilidade, cerca de setecentos mil cidadãos, deserdados do fim do império, num processo de torna viagem bem menos exuberante que os dos brasileiros do século dezanove, mas que trouxe nova vida aos territórios do interior, alimentando esperanças de reverter o isolamento, a subsistência, o êxodo que se arrastava há mais de um século.
Mas foi sol de pouca dura. Os que tinham voltado também se escoaram na torrente nunca travada, porque não houve sensatez nem prospectiva para conceber e construir um futuro de equilíbrio territorial, que passaria por investimentos selectivos, pela autêntica discriminação positiva, realizando um outro país, verdadeiramente mais livre, tranquilo, sorridente e próspero.
Por isso, ao iniciar o quadragésimo quinto ano da era da última revolução, até ver, arrimados às fragas que nos sustentam o orgulho, sentimos que, por mais que a alma não seja pequena, podemos ter chegado ao momento em que nada vale a pena, deixando-nos ir na vaga que ameaça lançar o país contra um novo cabo das tormentas, onde o Adamastor é a insânia, o imediatismo, a mediocridade, a ganância, as acções malévolas e as omissões cobardes que não soubemos combater. 
Fica-nos a sensação de que o tempo dos cravos foi, para nós, uma oportunidade perdida, talvez a derradeira, para garantir a esta terra e a estas gentes a dignidade a que tinham direito.

Teófilo Vaz