Que vida boa é a de Lisboa

Ter, 23/01/2018 - 09:41


A capital da república, que já foi do reino e do quase império, vive dias de júbilo, com os negócios do imobiliário a alimentar patos bravos, moedas a tilintar por todo o lado, um aeroporto congestionado a conhecer um upgrade na consideração da aviação internacional e o Terreiro do Paço a tornar-se o farol da gestão financeira pós-moderna.
Por vezes quase somos levados a sentir aquele frémito que perpassou algumas gerações de há um século, que quiseram acreditar num destino que nos colocaria no olimpo da história, ou o orgulho serôdio de glórias passadas, de que é exemplo memorável a fulgurante embaixada a Roma, com que o rei venturoso embasbacou a cristandade no princípio do século XVI. O pior é que, desses sonhos, caímos rapidamente no pesadelo que foram quarenta e oito anos de apagada e vil tristeza, enquanto outros rasgavam horizontes de liberdade e prosperidade.
O país tem vivido nestes quase nove séculos em verdadeira bipolaridade, embarcando em euforias estonteantes a que se seguem longos períodos depressivos, desanimados, rendidos à miseranda desilusão.
A capital não conheceu destino diferente, apesar dos arrufos de pretensão que lhe vão povoando o tempo, muitas vezes com efeitos gravosos para o resto do território e das gentes.
Lisboa não tem sido capaz de assumir a condição de cabeça da república, reincidindo em condutas que de nada servem para que o país mude de rumo. O que sentimos é que a voracidade da capital não tem forma de saciar-se e o país continua a sustentar verdadeiros caprichos dos que, por lá, atingem o desiderato tosco de se sentirem importantes para além das berças, donde partiram ao cheiro não da mirífica canela, mas de essências espúrias que o videirismo cultiva.
De facto, quem vive na capital usufrui de verdadeiros privilégios relativamente à generalidade dos restantes portugueses. Vejam-se as redes de transportes, subsidiadas por todos nós, com frequências que deixariam sem fala qualquer transmontano que possa conceber e esperar alguma liberdade de movimentos. Ele é a Carris, o Metro, os barcos nas travessias do Tejo, a grelha de auto-estradas, tudo partilhado, nos custos, com os desgraçados que deixaram de ver passar os comboios ou os autocarros de carreira, que já nem conhecem a cor dos táxis e também já não têm burros para montar a caminho do médico, dos correios, das finanças, da farmácia, do café… da vidinha mais simples.
Como se isto não bastasse, desde há algum tempo, à malta de Lisboa foi garantido um direito especialmente discriminatório dos restantes. Para entrar no castelo de S. Jorge, monumento nacional, toda a gente paga, menos os que residem no município capital. Não se vislumbra justificação para tal diferença, já que a conservação de tão simbólico espaço edificado é responsabilidade de todos os portugueses.
Os privilegiados lisboetas, que têm comodidades especiais, acesso a serviços como ninguém, ainda se reservam o direito ao abuso, provavelmente exibindo sorriso escarninho do rufia, que se gaba de enrolar os pategos.
Mais um exemplo do desprezo pelo país que a velha capital faz gala em ostentar.

Teófilo Vaz