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A supremacia das cartas de Natal

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Recebi o primeiro postal de Natal deste ano. Senti um arrepio pelo prazer cada vez mais raro de encontrar na caixa do correio um envelope manuscrito, coberto por uma caligrafia que parece dançar mais aos olhos do que os carateres de imprensa das cartas administrativas que têm pés de chumbo e poucos carateres. Não resisti à tentação ou à necessidade de cheirar o perfume da tinta antes de a abrir delicadamente para não a rasgar, incapaz de esperar até poder usar o corta-papel. É uma das inúmeras felicidades de dezembro, estas prendas de cartas e postais “escritos à mão”, dirigidas pelos correios com tudo o que este envio supõe: o tempo oferecido, o cuidado tomado na escrita, a intimidade deste diálogo único e tão particular que inicia uma correspondência. As cartas de Boas-festas permitem manter o contacto com pessoas que não queremos perder de vista (costumo dizer que cada encontro releva do milagre) ou afeições por momentos negligenciadas. Poder-se-á sempre acusar estas cartas por versar no elíptico, no maquinal das nossas existências. Isso não tem qualquer implicação. Estas dão-nos a oportunidade de ressuscitar um modo de conversação delicado- a relação epistolar, graças à qual tomamos o tempo para escrever o que realmente pensamos e para pensar o que realmente escrevemos. Há já alguns anos, tive uma cadeira de literatura cujo título era: “O texto epistolar” (incluía o romance mais sério do séc. XVIII, Júlia ou A Nova Heloísa, de J.J. Rousseau e o romance mais libertino, as Ligações Perigosas de Laclos), tema que permitiu encontrar outras intertextualidades, como por exemplo encontrar Hermann Hesse ou conhecer melhor o texto ambíguo de Guillerages, Cartas amorosas de uma religiosa portuguesa ou Stefan Zweig que já em 1927, consignava: “ Há uma arte nobre e preciosa: a arte da correspondência. O que a tornava tão maravilhosa e lhe conferia uma vida tão universal, uma riqueza era que, contrariamente a todas as outras formas de arte, esta não ficava ligada aos únicos artistas: era possível a cada pessoa restituir nas suas cartas essas brechas de ânimo interior e de movimentos de alma simplesmente transitórios. Nasceram assim no passado inúmeras pequenas maravilhas de verdade num mundo tranquilo onde a carta tinha ainda um valor de envolvimento, e a mensagem de pessoa para pessoa uma força tranquilamente evocadora.” Escrever, escrever-se abre um território à intimidade, talvez o último que esta conheça, de tal forma a correspondência epistolar torna as coisas do espírito no tom de diálogo próprio à intimidade das almas. Certos escritores maravilham- -nos nesse terreno e tocam- -nos tanto como através das suas obras literárias. Quem não se emociono um dia com uma carta? A maior parte do tempo, a relação epistolar é tanto melhor quando não é destinada a ser lida por outros que não o destinatário. Murmuram- -se segredos, conselhos que têm acentos de confidências e o tom inimitável da sinceridade. Revela-se aí o rosto do autor, e no plano da retaguarda o retrato da época: “ O génio quando se tem a tua idade, escreve o poeta Armel Guerne que conheceu a guerra, a um dos seus jovens admiradores, é chegar a desconfiar profundamente das suas ideias, de se convencer, seja qual for o pensamento, que não será possível verdadeiramente encontrar o desejado a não ser mais tarde, não somente após as experiências que tenhamos feito e desejado, mas sobretudo depois das mais altas provas que tenhamos merecido. O problema, é manter a confiança, amar tudo o que está fora de si para avançar, respeitosamente, com a esperança de se juntar si- -mesmo à empreitada, um dia. Desde que descobri o texto epistolar tento manter- -me ao corrente e adquirir mesmo algo da correspondência de alguns autores que conheço. Desta forma não hesitei – como o carteiro de Neruda- em fazer minhas as cartas que Hermann Hesse enviava aos seus admiradores que lhe escreviam – às centenas por ano depois de ter recebido o prémio Nobel. Comecei por folhear estes inéditos. Uma frase cativou o meu olhar. “ Aceito o apelo que a hora presente lança aos pensadores, como um chamamento de Deus aos que dormem.” Seguidamente outra: “ pode ser decerto discutido infinitamente, discutir para saber se “adaptar-se” não é efetivamente baixeza, se não seria mais bonito e mais corajoso sofrer e sombrear do que adaptar-se à maledicência do mundo.” Sentei-me e li duma só vez o conjunto generoso destas missivas que abraçam as duas guerras mundiais. A correspondência começa há alguns cento e vinte anos, e consegue o milagre de nos falar como se fosse murmurada ao ouvido nos tempos presentes. Hermann Hesse alerta- -nos para os perigos dos quais nos protegemos tão pouco- a radicalidade odiosa das posições políticas, as incertezas económicas, as tragédias devidas à violência. Além de nos impressionar pela sua lucidez acerca do curso dos acontecimentos e de nos tocar pelos conselhos, (“ sede fiéis aos poemas, não para negar a “realidade” mas para resistir, com uma força inspirada, aos absurdos, colocando-vos aos serviço do que tem sentido”), ensina-nos e mostra-nos as delícias da arte epistolar. Bem, vou-me despachar para poder escrever as minhas cartas de Boas-festas.

Adriano Valadar