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Sobre a caça e os touros

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O filósofo José Ortega y Gasset escreveu um admirável e penetrante livro com o título desta crónica, que a trago a terreiro em virtude da macabra montaria realizada na histórica Quinta da Torre Bela, que tanta celeuma suscitou no epicentro do PREC, nas proximidades de Rio Maior, capital das barricadas e mocas a modo de heráldica representativa do resistir propiciando mocadas aos esquerdismos, doença infantil do comunismo escreveu o camarada Vladimir antes de ser embalsamado e exposto na Praça Vermelha debaixo do pseudónimo de Lenine. A quinta foi palco de outros episódios da pequena história, desta feita a ineficácia das leis, o aguçado furar através das malhas dos normativos tão lassos quanto as meias de seda de costura atrás que as apanhadeiras da rua Direita de Bragança deixavam escapar, levaram ao despedimento das incautas raparigas no tocante à época dos sensuais revestimentos das pernas das senhoras, no segundo à perda de vida de javalis, gamos e veados de modo tosco, tonto e trapaceiro ao arrepio de tudo quanto o pensador tão bem expôs na obra referida. A prática da caça é tão antiga quanto o homem, esse Homem e outros depressa perceberam os cuidados a terem ao enfrentarem feras no desejo de as despejarem de grutas, tocas e covis, suas moradas no intuito (quase sempre concretizado) de as despejarem sem custas judiciais, dispondo de precioso, fundamental aliado – o fogo – quando aprendeu a criá- -lo, a domesticá-lo a seu belo prazer e capricho. Uma leitura de alguns clássicos de Aristóteles a Xenofonte, passando por Plutarco, Suetónio, Plínio e outros qualificados observadores da vida animal do seu tempo tomaram nota do visto, ouvido, observado, caçado e mastigado, deixando-nos registos em vários suportes acerca das usanças, argúcias e artimanhas no exercício desta nobre arte, que não tardou a ser objecto de observâncias no tocante à época, instrumentos e métodos da captura de cada uma das espécies, o Estagirita escreveu o tratado História dos Animais que as pessoas de bom gosto (gosto de lerem obras universais da cultura Ocidental) teimam em ler. A cultura dos amantes da caça no decurso dos séculos plasmou duas categorias de caça: a maior e a menor. Por causas de casta, a caça maior foi apresada pela nobreza e alto clero, a caça menor ficou dividida, de um lado os proprietários e burguesia de toga, do outro os engenhosos caçadores furtivos de estrela e beta pé descalço que se fundiram com todos quantos caçavam para alterarem a soturna e desenxabida dieta do quotidiano, além de conseguirem moedas pretas de subsistência acabando por envolver caçadores e caçarretas dos burgos de um Portugal rural, pobrete mas alegrete. Como é evidente, em Bragança, coexistiam (não sei de assim continua a ser) caçadores de diferentes famílias sociais (efeito nivelador com recíproco respeito) destacando por virtudes de engenho, golpe de asa, de sociabilidade e perseverança. Dos mais notórios que conheci destaco os irmãos Nogueiro, o esfusiante Manuel Brasileiro (dono se um cão dotado de desmesurado apetite, capaz de esvaziar o tanque de S. Vicente a transbordar de caldo), a sagacidade manhosa do Tio Bloso, além do caçarreta exaltado o Senhor Afonso funcionário do BNU. Nas aldeias, nas vilas, nas duas cidades de então, exibiam-se espingardas de vários tipos, fixei os olhos numa reluzente carabina do sempre bem-disposto gentleman coronel Montanha, o qual preferiu ser tenente-coronel a frequentar cursos e peregrinar entre Seca e Meca na caça às estrelas sobre os ombros, em detrimento das charrelas escondidas nos vales pedregosos e restolhos da nossa província. O ocorrido no «pequeno» latifúndio que pertenceu aos aristocratas Lafões nunca seria possível na época de sua propriedade, conheci alguns, assumiam a condição de membros de influente casa inscrita no «Almanaque Gotha», a qual no referente a caçadas e montarias de pompa e circunstância e/ou de treino dos cavalos e cães seguia o normativo britânico, o que no meu entender não passam de extravagantes reminiscências do Ancien Regime. O morticínio de génese espanhola recupera a tradição da exuberância dos grandes de Espanha e de um nobreza cuja matriz vem de longe, não por acaso a caça era devoção dos nobres, sendo os banquetes carolíngios uma altíssima representação do poder. O ditador Franco, caudilho de Espanha pela graça de Deus, ufanava-se de matar centos de perdizes num só dia no desenrolar de mortandades ao estilo da realizada na Quinta implantada no coração do Ribatejo. A aferição de responsabilidades formais e reais nunca serão conhecidas na totalidade, há muitos actores envolvidos no filme, o actor/canastrão Matos Fernandes imitou o papel de duro risível do ministro Cabrita no começo da fita, a seguir aplainou as farroncas, aguarde-se o The End. Outras fitas foram repostas por o filão estar a render proveitos nas televisões e na imprensa de papel, assisti a um lamentável exercício ao género fundamentalismo Torquemada, protagonizado pelo vanidoso capataz do PAN, palrador insistente quanto uma esfoura após absorção de abrunhos verdes.

Armando Fernandes