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Será que Adolfo Hitler nasceu em Vale de Telhas?

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É por demais óbvio que Adolfo Hitler não nasceu em Vale de Telhas, nem lá perto. O malvado líder do Partido Nazi, responsável máximo do Holocausto, nasceu em Braunau am Inn, pequeno município no norte da  Áustria, à data integrante do Império Austro-Húngaro. Muito longe de Vale de Telhas, portanto. O título desta minha crónica, sugerido pelo dito jocoso de alguém que acompanhei numa breve visita, é obviamente provocatório, mas com boa intenção: despertar as consciências para o muito de bom que Trás-os-Montes tem e tudo que de bem que por cá se vai fazendo, ainda que seja muito pouco. Acontece que do riquíssimo património monumental desta formosa aldeia situada bem no coração desta mal-amada e pior tratada província nordestina, faz parte um tosco edifício a que o povo chama Casa dos Mouros, que tem a curiosa particularidade de ostentar, incrustados na frontaria de pedra miúda, vários ornamentos com simbologias díspares. Trata-se de objectos que alguém, sem grandes conhecimentos arqueológicos, por certo, embora com rara sensibilidade artística, terá arrebanhado das redondezas com o intuito de os preservar, conferindo-lhe esta nova função decorativa. Acontece que no meio dessa amálgama ornamental são visíveis suásticas (primitivas, claro!), o que não deixa de ser intrigante e que levaram o referido visitante a questionar, com ironia: será que o Hitler nasceu aqui, em Vale de Telhas? Ora, é por demais sabido que a  suástica,  a cruz suástica, a  cruz gamada, nas suas muitas variantes,  é um símbolo  místico em muitas culturas e religiões de diferentes tempos, designadamente nos ameríndios Astecas, nos Budistas, nos Gregos, nos  Hindus e nos Celtas muito em particular que é o que mais nos interessa. Infelizmente mais conhecida, todavia, é a suástica que o partido nazi de Adolfo Hitler adoptou como símbolo da sua suposta superior raça  ariana. E porque a foice e martelo emblemática do comunismo internacional muito se parece com a cruz gamada, embora tenha diferente significado e também apareçam foices e martelos estilizados em muitas estâncias arqueológicas, poderíamos igualmente citar, a este propósito, José Estaline, outro grande flagelo da Humanidade. Em Vale de Telhas, felizmente, não nascem homens deste calibre, mas apenas boas pessoas: ordeiras, pacíficas e trabalhadoras. A suástica gravada há milénios nas pedras de Vale de Telhas, como se vê, não foi inventada por Adolfo Hitler, como não foi José Estaline que criou a foice e o martelo. Muito menos Hitler e Estaline nasceram ou passaram por Vale de Telhas e conspurcaram o seu património arqueológico, que é muito mais profundo e valioso do que à primeira vista poderá parecer. Dele fazem parte monumentos relevantes de que destaco o castro celta do Cabeço, no qual especialistas situam a romana Pineto (Pinetum), o Pelourinho, dois marcos miliares, a Fonte Romana e o lagar do Poulão, para da lá da conhecida Ponte Romana, que de romana, todavia, apenas só já terá pedras, tantas foram as reconstruções de que foi alvo. Contrariando o deplorável esquecimento e abandono a que foram votados ao logo dos tempos, a Câmara Municipal de Mirandela tomou a louvável iniciativa de arrolar e ilustrar, no quadro do Plano Director Municipal elaborado em 2014, os monumentos mais visíveis. Também a Junta de Freguesia está presentemente empenhada em preservar, organizar e dar visibilidade a este valioso acerbo de que é titular, o que terá, estou certo, forte impacto na dinamização económica, social e cultural, não só de Vale de Telhas mas de todo o concelho. Para começar promoveu, recentemente, um “webinar” que foi muito bem moderado por Cátia Barreira, directora deste jornal, muito concorrido e no qual também participei com muito gosto. Outras acções se seguirão. Estejam atentos.

Henrique Pedro