Sem cicuta, sem pudor

No início da operação Marquês um familiar chegado resumiu o esdruxúlo e sinuoso processo a acusações de cariz fiscal. Ouvi a opinião escorada em bons conhecimentos jurídicos e amplo saber sobre os tribunais portugueses. De Conrado guardei prudente silêncio na justa medida de naquele pântano judicial nadavam peixes vorazes, recheados de espinhos ao modo dos sáveis, sabogas, savelhas e lúcios de alto coturno donos de dentes afiadíssimos dos dois lados, especialistas em águas profundas, violações do segredo de justiça, caneladas tão lesivas quanto as do na denominada o Tita jogador do Desportivo de Bragança a fazer corar de vergonha (coisa não vista, nem ouvida na denominada operação Marquês vaidade do Ministério Público) o pundonoroso e disciplinado capitão da mesma equipa, para lá das entrevistas capciosas dos acusadores e dos acusados. Durante sete anos (sete anos serviu como pastor Jacob a Labão por amor a Raquel) nesta novela narrada conforme as conveniências dos contentores não surgiram amores carnais, sim assolapadas paixões pelo vil metal que sendo vil «lustra e enobrece» mercadejadores e vendedores de simpatias nos jornais, nas televisões, na opacidade dos gabinetes, nas alcovas, bares e restaurantes de mesa fixa. Ao fim dos sete anos de pastoreio investigativo o juiz de instrução lapidarmente, sem sofismas, em linguagem colorida infestada de vírus irónico, de ironias psiqueanalíticas a apontarem fantasias a indiciarem leituras de Freud e Iung, reduziu a estilhaços a acusação provocando um sismo de grau 10 nas hostes do procurador Rosário Teixeira, azia a Carlos Alexandre a sobrepor-se às doses duplas de sais de frutos, a obrigar profunda reflexão aos altos operadores de justiça e, para remate final o golo do juiz no início do jogo relativamente ao obscuro sorteio do juiz natural. Tudo somado faz lembrar a acção punitiva do ministro bragançano e salazarista Cavaleiro de Ferreira, sobre o Conselho Superior que aferia as qualidades dos juízes no tempo do Estado Novo. Agora, os dados estão lançados, o Pavão Sócrates atroa os ares soltando cantares acídulos, o MP emudeceu, os comentadores acotovelam-se a cotovelar opiniões, os jornalistas vampiros dos segredos de justiça estão sequiosos quais sanguessugas, Marques Mendes destila baba ressabiada por cima de Ivo Rosa (andou ele anos a fio a perorar estilo barata tonta), os juízes dos tribunais superiores coçam a cabeça indecisos), a Senhora Ministra e procuradora imita o Sr. Pangloss, a Senhora PGR está atónita e perplexa, a Senhora ex (como os reis sem coroa) Joana Marques Vidal rememora irritações, Galante & Rangel apostam na redentora redução, Zeinal e Granadeiro estão chorudamente reformados, bem vinho a Herdade do Perdigão que Granadeiro volta a possuir, e…quanto ao dono disto tudo vai lavando os pratos para neles lançar a vingança que se serve fria. O banqueiro gosta de apresentá-la gelada. A barrela justicialista vai continuar. Agora ao florentino e veneziano!

Armando Fernandes