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Satânico

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Laquela figura exposta na forja sublinhava já na perfeição. A de um antigo anjo da corte do céu irremediavelmente condenado ao fogo, isto é, ao sofrimento, por ter tido a arrogância de querer igualar-se ao poder de deus. Uma criatura consumida de inveja com a simples visão dos piedosos e bem-aventurados, apostada na ideia de os perder para que as penas pessoais lhe fossem mais suportáveis, e também por isso o mestre supremo do disfarce, vestindo roupagens sem fim para os atrair. Um ser cuja ambição maior consistia em inverter os valores do bem e do mal no mundo para assim procurar lavar o crime imperdoável que cometera. Numa altura em que se endeusa o visível e o palpável e menosprezam as coisas do espírito, o demónio será hoje um conceito acerca do qual a maioria encolhe os ombros e sorri: fantasias, criações mitológicas ao jeito do homem-aranha ou do homem-do-saco. Mas mitológico não quer dizer que não reflita nenhum tipo de verdade. Bem pelo contrário, desde tempos imemoriais que os mitos, todos eles, têm exposto a realidade mais profunda e permanente do ser humano. Se acontece largarmos uns estamos destinados a abraçar outros pois para nós, como diz pessoa, “o mito é o nada que é tudo”. Nesse caso, qual seria então o significado daquelas monstruosas representações, quer a física quer a moral que lhe servia de base? Que verdade perdurável espelharia esse mito fora de uso? Que temos nós a ver com satanás? Tudo, mas alguém disse uma vez que a sua obra mais perfeita é dar a entender que não existe, o que lhe abre uma via larga para arrastar os incautos à perdição. Talvez não seja preciso muito esforço para pensarmos em pessoas, quem sabe até se chegadas, que se esmeram em arquitetar teias de engano e falsidade, espargir venenos a toda a volta, criar turbilhões que nos arrastam para o seu desassossego, sugar-nos, quais vampiros, a tranquilidade e o bem-estar. Cuja agitação destrutiva e autodestrutiva desperta enorme pena, mas de quem há que fugir a sete pés como elas próprias fogem da cruz. E nem valeria a pena ir por aí. Sem suspeitar dessa cilada, as pessoas comuns começamos a prestar culto ao inimigo se os erros e os fracassos dos outros nos trazem alguma satisfação. Pactuamos com ele se as desgraças gerais, dialogando com as nossas, nos consolam, se os males exteriores, espelhando os interiores, aliviam. Estamos sob a sua alçada se achamos prazer secreto em qualquer tropelia externa que justifique aquelas que fazemos. Adoramo-lo se na balança das culpas a descida do prato alheio faz subir um pouco o nosso. Já lhe vendemos a alma se damos connosco a empolar e difundir os pecados do próximo ou, pior ainda, se o tentamos para que os cometa e poder depois acusá-lo deles. O “príncipe deste mundo” (joão 16:11) nunca anda muito longe. Será ele fruto da nossa guerra contínua com o mistério de tudo, da inquietação de estarmos vivos a que freud chamou instinto de morte? O sentimento de inferioridade e o desejo de o suplantar pela afirmação? O animal competitivo que há em nós? O nunca sabermos se amanhã vamos estar cá? Não deixam de ser forças sombrias que nos movem, tanto mais fortes quanto menos consciência temos delas. Deixá-las exprimir-se livremente pode levar-nos a desejar espezinhar o que existe dentro e fora, com efeitos devastadores nas mentes, nos corpos e nas vidas. Resta-nos aceitar a existência e tudo o que ela contém, o irracional em que estamos metidos, a nossa pequenez e irrelevância, mesmo se isso exige doses infinitas de humildade.embro-me perfeitamente de uma gravura que há sessenta anos existia numa das paredes da “frauga” dos caldeireiros, no largo da pracica, em balfrades. Num fundo de labaredas, uma figura globalmente humana, peluda, traçada a vermelho e negro, rosto sinistro de caninos proeminentes e olhos esgazeados de crueldade, orelhas bestiais, dois cornos grossos e retorcidos a sair da testa, mãos e pés de compridas garras aguçadas, um rabo a rematar em flecha, a postura captada no instante imediatamente anterior ao da investida contra uma presumível presa. Se calhar por exprimir os traços morais que o catecismo lhe atribuía (e na altura andávamos a aprender), era uma imagem aterradora do diabo, pelo menos para um miúdo de cinco ou seis anos como eu. As catequistas também davam o seu melhor para nos traduzir em palavras a ideia que

Eduardo Pires